A nova empreitada de um estaleiro que quase quebrou nas investigações da Lava-Jato
Estaleiro Atlântico Sul preocupa o setor portuário ao tentar obter autorização para construir terminal de cargas em área liberada à fabricação de navios
Criado durante o primeiro governo Lula para ser um dos motores da retomada da indústria naval no país, o Estaleiro Atlântico Sul — formado pelas empreiteiras Camargo Corrêa e Queiroz Galvão, em sua origem — operou durante anos nas proximidades do Porto de Suape, em Pernambuco, até ser tragado pelas investigações de corrupção descobertas na Petrobras.
A Operação Lava-Jato revelou, a partir de delações premiadas e provas obtidas com ex-operadores do PT, que a gigantesca estrutura de construção de sondas para a Petrobras escondia um bilionário propinoduto destinado a enriquecer políticos e a abastecer o caixa dois das campanhas petistas e de seus aliados. Várias empreiteiras — inclusive as do estaleiro — estavam no esquema que ficou conhecido como “Clube do Bilhão”.
Quando o esquema ruiu e os contratos sumiram, o estaleiro entrou em recuperação judicial, tendo de lidar com uma dívida de mais de 1,3 bilhão de reais. A volta de Lula e do PT ao Planalto, no entanto, vem, aos poucos, mudando as coisas para o estaleiro — que voltou a fechar contratos.
Recentemente, o Atlântico Sul decidiu avançar num projeto bilionário de construção de um terminal portuário privado na área concedida pela União para operação de construção e manutenção de navios. No atual negócio, o estaleiro atua na reforma e manutenção de embarcações. Com um porto, no entanto, seus ganhos se multiplicariam.
Precisando fazer caixa, o estaleiro decidiu monetizar o espaço que recebeu da União colocado em negociação uma área de 40 hectares para estruturação do novo empreendimento, formado por um terminal de movimentação de granéis líquidos, como combustíveis, e outro para cargas em geral.
O avanço do projeto na burocracia estatal chama a atenção das autoridades e também da empresa que administra o Porto de Suape. Num recurso, a operadora denunciou o desvio de finalidade do terreno, que deixou de ser usado para construção de navios para ser explorado como terminal privado de cargas.
Argumentou que os donos do novo empreendimento teriam generosas vantagens comerciais com o negócio em concorrência com o terminal de contêineres de Suape. Afinal, o tradicional porto público organizado paga tarifas portuárias e valores de arrendamento, enquanto o novo porto privado teria custos de operação muito menores.
Concessionária do Porto de Suape, a empresa International Container Terminal Services (ICTSI) alertou o governo Lula, no fim do ano passado, sobre as irregularidades e o “insanável desvio de finalidade na ocupação irregular de terreno da União localizado no Terminal de Suape (PE), com grave e urgente dano ao interesse público e ao Erário”.
A partir da denúncia, a Secretaria Nacional de Portos, vinculada o Ministério dos Portos e Aeroportos, oficiou a Secretaria de Patrimônio da União para obter dados sobre o desvio de finalidade do terminal do estaleiro. Nada, no entanto, foi feito.
O projeto vem avançando em Suape, já com a solicitação de operação do terminal privado enviada à Antaq, sem que as autoridades e o governo Lula atuem no caso.







