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A melancólica noite de Santa Maria

Vida noturna da cidade ainda tenta se recuperar, um ano depois do incêndio da boate Kiss. Jovens falam do medo e da dificuldade de voltar às boates

Por Alexandra Zanela e Carlos Guilherme Ferreira 26 jan 2014, 08h30

Para jovens de municípios do interior do Rio Grande do Sul, a vida noturna de Santa Maria, a cidade universitária com gente de todo o Brasil, sempre foi um sonho. Os bares e casas noturnas do Centro ganharam fama na região, e para lá convergiam adolescentes, universitários e casais aos milhares. Os visitantes se juntavam ao grande contingente de jovens moradores. O Censo de 2010 constatou que, dos 261.000 habitantes da cidade, 35.000 tinham entre 15 e 29 anos.

A tragédia da boate Kiss atingiu em cheio um local marcado pela alegria. Desde a madrugada de 27 de janeiro de 2013, a noite de Santa Maria tem um silêncio incômodo. Quem conheceu a cidade antes do desastre espanta-se com a quantidade de bares e casas noturnas fechados. A partir de outubro, a diversão noturna começou a tentar se reerguer.

“Faz uns dois meses que a cultura noturna voltou. A cidade parou por oito meses, não foi nada fácil”, conta André Vitor, de 29 anos, dono da boate Mariachis, que passou por uma reforma de nove meses para poder reabrir. Ele e o sócio Marcelo Sangali, também de 29, tiveram de alugar um imóvel ao lado para fazer uma saída de emergência. A dupla lembra que tinha planejado voltar a funcionar um mês depois da tragédia – que obrigou os estabelecimentos a passarem por uma adequação às normas de segurança.

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Na Mariachis, agora, a lotação é controlada em tempo real por Marcelo e André, que recebem pelo celular aviso sobre cada cliente que ingressa no prédio. Tudo para não ter problemas com a fiscalização que, segundo eles, aparece pelo menos uma vez por mês. Na fila para entrar na Mariachis, as irmãs Tassiane Moreira, de 21, e Tassiele Moreira, de 19, ambas estudantes de Medicina na UFSM, e a amiga Morgana Bevilacqua, de 20, contam que a cidade começou a voltar ao normal no fim do ano. Segundo elas, o assunto em Santa Maria ainda é a Kiss, mas elas não querem deixar de sair, pois é onde encontram os amigos e se divertem.

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Uma quadra abaixo, a contadora Roberta Del Fabro, 30 anos, se diverte na boate Muzeo Pub. No dia 27 de janeiro de 2013 ela ia para a Kiss, mas a longa fila para entrar a fez desistir. Roberta não quer deixar de aproveitar a noite. Mas sente que o clima ainda não tem a mesma descontração de antes. Quem está na noite, conta, lida com o medo. “As casas se adequaram, mas não temos a certeza de que todos vão sair caso aconteça algo. A gente se arrisca, porque ninguém sai esperando que algo ruim aconteça”, diz.

Escombros – O penúltimo prédio da Rua dos Andradas, local onde funcionava a Kiss, tornou-se uma espécie de ponto de atração de curiosos. Um discreto movimento de ‘turismo mórbido’ ocorre permanentemente na cidade. A maioria dos carros que passa pelo local diminui a velocidade. E é comum ver cabeças para fora dos coletivos urbanos que sobem a rua. Ao lado do logo da Kiss há uma pichação: “Justiça a todos”. A fachada da boate está coberta por tapumes, e, sobre eles, os moradores da cidade colam fotos das vítimas e renovam constantemente faixas de protesto. Completam o ‘santuário’ algumas flores, mensagens religiosas, uma imagem da Nossa Senhora Aparecida e camisetas que funcionários da Kiss usavam em 27 de janeiro.

No momento em que a reportagem do site de VEJA passava pela Rua dos Andradas, estavam em frente ao prédio da Kiss os irmãos Jeferson Michelon, de 30 anos, e Rose Michelon, de 37. Natural de Foz do Iguaçu, ele é empresário do ramo de bebidas em Santa Maria e conta que o comércio foi afetado pela tragédia. “Eu vinha sempre à boate, estava sempre cheio, era bom. Depois disso, nunca mais entrei em boates. Perdi dois amigos aqui, eram como irmãos. A rotina da cidade mudou muito, e isso foi terrível também para o comércio”, conta.

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