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A chuva na campanha eleitoral

Esta terça-feira estava destinada a ser mais um dia radiante na extensa agenda de inaugurações (reais ou fictícias) que Lula faria no Rio de Janeiro. Logo de manhã, no violento Morro do Alemão, Lula abriria uma creche e uma Unidade de Pronto Atendimento (UPA), um misto de hospital e pronto-socorro. Com a cidade debaixo de água, a festança foi cancelada, assim como o discurso triunfante que Lula faria. A realidade impôs-se, Lula calou-se e passou a dar declarações típicas dos políticos na defensiva: apelou para Deus e culpou a chuva atípica pelo caos. E, claro, defendeu o quanto pôde seus aliados, o governador Sérgio Cabral e o prefeito Eduardo Paes.

Cabral perderá votos com a tragédia desta semana? Só se poderá responder a essa pergunta mais à frente, quando as águas pararem de rolar e com a contabilização total dos prejuízos, mortes e com a eventual demonstração de eficiência do governo em resolver os problemas. Mas, no mínimo, a chuva de ontem e de hoje passa a ser tema da campanha eleitoral � assim, como as chuvas de dezembro e janeiro em São Paulo serão exploradas pelo PT contra José Serra. Neste sentido, é um flanco novo a ser fustigado por seus adversários. Eduardo Paes tem menos a perder em comparação com Cabral. Paes está há pouco mais de um ano no cargo. Tem, portanto, tempo para recuperar-se política e eleitoralmente de uma catástrofe que ocorra agora. De qualquer forma, qualquer trapalhada sua será debitada na conta do seu grande eleitor, Sérgio Cabral, que embora favorito em outubro, tem uma eleição dura pela frente.

Lula, portanto, não está agindo para minorar os problemas da população fluminense, mas para diminuir o impacto eleitoral da tragédia. Neste sentido, ressalte-se, não é diferente de qualquer outro político brasileiro: Lula bateu em Serra pelos dois meses de chuvas em São Paulo, tentando encharcar a popularidade do então governador e, agora, protege seus aliados.

Faltam apenas seis meses para a eleição. Lula sabe que qualquer deslize pode ecoar em outubro tirando votos de Dilma Rousseff no terceiro maior colégio eleitoral do Brasil. Lula pediu a Deus para que �a chuva parasse um pouco, para que as coisas melhorem e voltem à normalidade�. Na verdade, Lula pediu que a chuva não atrapalhe sua pregação otimista sobre o Brasil (um país que ele acha que construiu em sete anos de governo) e, sobretudo, não respingue em Dilma.

No final das contas, de certa forma a partir de agora cada um passa a ter sua cota de chuva para carregar nas costas na campanha eleitoral: Serra e a dupla Dilma & Lula.