Clique e Assine a partir de R$ 7,90/mês
VEJA Recomenda Por Coluna Os principais lançamentos da música, do cinema, da literatura e da produção infanto-juvenil, além da TV, comentados pelo time de VEJA

Em oitavo disco, Lana Del Rey padece de amor – e do fim do mundo

Segundo lançamento de 2021, 'Blue Banisters' vem embebido no zeitgeist pandêmico – de Black Lives Matter à crise climática – e em muita dor de cotovelo

Por Tamara Nassif Atualizado em 27 out 2021, 17h08 - Publicado em 22 out 2021, 15h23

Uma década se passou desde que Lana Del Rey arrebatou uma multidão de jovens com Video Games, uma melancólica e apaixonada ode ao amor californiano. Desde então, cunhou-se uma máxima no cenário da música indie: poucos artistas conseguem descrever tão bem a dor de cotovelo quanto ela. Em seu oitavo trabalho, o disco Blue Banisters, o segundo lançado neste ano, a americana faz valer o mote que a consagrou. Só que com um adicional: mais do que padecer apenas das dores de amor, ela também se dói pelas causas que agitaram o mundo de 2020 para cá.

BLUE BANISTERS, de Lana Del Rey (disponível nas plataformas de streaming)
BLUE BANISTERS, de Lana Del Rey (disponível nas plataformas de streaming) ./.

Sucessor de Chemtrails Over the Country Club, lançado no último mês de março, o novo disco também inevitavelmente esbarra no contexto pandêmico no qual foi concebido. Mantendo o clima folk e a voz sussurrada que já lhe é patente, Lana insere o zeitgeist já no refrão da faixa de abertura: “Lá estávamos nós, gritando Vidas Negras Importam em uma multidão / E no Rio Mississipi, vi que você viu quem eu sou”, canta em Textbook. Ela, então, diz para que reescrevam a história juntos e que, talvez, a diferença entre ela e o amado seja a chave para a liberdade. A canção seguinte, que dá nome ao álbum, reflete sobre como se reerguer de um amor dolorido com a ajuda de amigas. “Tem um buraco no meu coração / E todas as minhas meninas estão tentando curar”, canta, e logo aproveita a deixa para tangenciar a crise climática que faz a Califórnia explodir em chamas: “Estou com medo das queimadas em Santa Clarita / Eu queria que chovesse.”

Ao mesmo tempo em que traça o cenário calamitoso que se desdobra ao seu redor, ela também deixa entrever seu estado emocional – o que talvez seja o grande trunfo do disco. “Se este for o fim, eu quero um namorado”, canta nas baladas de Black Bathing Suit, canção que alude à “quarentena de grenadina” e a chamadas de Zoom, enquanto Violet For Roses vê moças rodopiando em vestidos de verão, sem uma máscara à vista, ao tempo em que as livrarias “finalmente” voltam a abrir as portas. “Isso me deixa tão feliz”, sussurra, e rapidamente muda de foco para alfinetar um amor que tentou mudá-la. “Desde que me desapaixonei por você, me apaixonei novamente por mim”, diz.

É como se o fim do mundo e o fim do amor andassem lado a lado, e ela trata ambos com uma ternura incomum. Quer dizer, incomum para o resto do mundo – na voz de Lana Del Rey, até o mais caótico dos cenários soa bonito.

 

Continua após a publicidade

Publicidade