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VEJA Música Por Sérgio Martins Música sem preconceito: de Beethoven a Pablo do arrocha, de Elis Regina a Slayer

Um professor da guitarra

Adrian Belew faz uma única apresentação em São Paulo e mostra seu estilo de guitarra que conquistou o coração de gênios como Frank Zappa, David Bowie e Robert Fripp

Por Sérgio Martins Atualizado em 30 jul 2020, 21h16 - Publicado em 22 nov 2016, 21h46

 

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A qual escola musical pertence seu guitarrista predileto? Blues e rock’n’roll, soul music e funk, jazz, progressivo, heavy metal ou você prefere aqueles que disparam mil notas por segundo? Pois um dos meus músicos favoritos, o guitarrista americano Adrian Belew, se notabilizou em transitar por todas essas áreas (com exceção das mil notas) sem pertencer exatamente a um gênero musical específico. Belew, de 66 anos, que faz uma única apresentação em terras brasileiras neste domingo (no Carioca Clube, em São Paulo, às 20h) foi da música africana ao rock progressivo, do minimalismo ao new wave. Além disso, ele trabalhou com pelo menos três grandes gênios da música pop do século XX: Frank Zappa, David Bowie e Robert Fripp (do King Crimson). Uma das peculiaridades de seu estilo é a profusão de ruídos e efeitos, que por vezes lembram o som de determinados animais – caso de Elephant Talk, do King Crimson, onde faz crer que estamos diante de uma manada de elefantes furiosos. “Estou sempre criando novos sons para a guitarra, nunca acreditei que não há mais o que explorar no instrumento”, diz ele, que é autodidata. “Eu comecei fazendo experimentações até criar meu estilo e técnica próprias.”

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O instrumentista foi batizado com o nome de Robert Steven Belew e iniciou sua carreira musical na bateria. Não demorou muito para que ele adotasse o nome artístico de Adrian (“sempre gostei de ser chamado assim”, justifica) e assumisse a guitarra. Belew tocava nos clubes noturnos de Nashville quando Frank Zappa (1940-1993) o chamou para integrar sua banda. Foi uma oferta que caiu do céu, porém lhe custou uma dose de trabalho extra. “Frank é exigente com os músicos. Eles têm de tocar exatamente o que ele pede”, diz o guitarrista que não sabia (e não sabe) ler música. “Os ensaios eram na segunda-feira. Frank distribuía as partituras e todo mundo começava a tocar”, lembra. “Como eu não sabia ler música, tinha de ir à casa dele nos finais de semana e aprender as canções nota por nota.” Foi numa dessas visitas que nasceu uma das melhores participações do guitarrista na banda de Zappa: a imitação que ele faz de Bob Dylan em Flakes. “Frank não conseguia cantar e tocar ao mesmo tempo. Ele me mostrou Flakes e achei tão ruim que comecei a imitar Bob Dylan em cima da melodia”, entrega o guitarrista. “Ele então me falou: ‘A imitação entra na música’.” Embora tenha atuado como músico contratado – daqueles que não dá palpite, apenas faz o que o patrão pede – Belew acha que esse período foi um dos melhores momentos de sua carreira artística. Foi ali que ele aprendeu a organizar uma turnê, produzir discos, tirar o melhor dos músicos que o acompanham e gerir um negócio. “Se eu não tivesse passado por Zappa, eu certamente não me daria bem no King Crimson.”

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Em 1978, Belew ainda estava sob o comando de Frank Zappa quando o produtor Brian Eno o recomendou para David Bowie (1947-2016). O roqueiro inglês o convidou para jantar e deixou claro que só iria trazê-lo para a sua banda depois de Belew encerrar sua temporada com o cantor e guitarrista americano. Porém, Zappa apareceu de surpresa no restaurante e o guitarrista antecipou sua entrada no time de Bowie – como retaliação, Zappa decidiu punir a banda inteira, demitindo-os no meio de uma turnê. David Bowie, por seu turno, cativou Belew com seu novo método de trabalho. “Zappa dizia o que eu tinha de fazer e ponto final. Bowie, não. Queria saber como a gente poderia contribuir no álbum e chegava a mostrar as canções para darmos palpites nos arranjos.” A temporada do guitarrista na banda do inglês rendeu o ao vivo Stages (1978) e Lodger (1979), última parte da trilogia de Berlim. Tempos depois, em 1990, a dupla retomou a parceria quando Belew se tornou diretor artístico da turnê Sound & Vision, na qual ele recriava sucessos como Let’s Dance e Space Oddity. “Minha missão foi retrabalhar as canções de Bowie para uma formação básica de guitarra, baixo e bateria. Em certos momentos, claro, nem me arrisquei a mudar os arranjos originais – caso da guitarra de Robert Fripp em Heroes. Mas sempre que pude deixei minha marca nos solos.” Belew comenta que Bowie fazia questão de viajar com a banda e leva-los para museus e exposições de artes plásticas. E também estranha o fato de não haver vídeos daquela turnê. “Nós éramos filmados a todo momento. Não sei o que aconteceu.”

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O guitarrista americano passou pelos Talking Heads e pelo Tom Tom Club (formado pelo baterista Chris Frantz e pela baixista Tina Weymouth, dos TH). Mas cansado dos problemas internos que corroíam o grupo aceitou o convite do guitarrista Robert Fripp para integrar uma nova banda. A princípio, ela teria um novo nome. Fripp recrutou também o baterista Bill Brufford e o baixista Tony Levin. Quando o quarteto iniciou os ensaios, eles acharam por bem assumir o nome de King Crimson, banda com a qual Robert Fripp escreveu seu nome na história do rock progressivo. “Com eles pude fazer tudo o que sempre quis: compus, toquei, cantei, produzi…”, enumera Belew. O guitarrista construiu uma carreira solo paralela, onde utilizava todas as canções que era recusadas por Fripp. Com Belew, o grupo assumiu uma identidade mais pop, sem perder seu poder de experimentação. Canções radiofônicas como Hearbeat e Sleepless podiam conviver pacificamente com Neurotica e Lark’s Tongues in Aspic Part 3, que cumpriam a função vanguardista do grupo. “Sem querer me gabar, mas em certas apresentações em achava que nós éramos a banda mais espetacular do mundo” (no que este redator concorda). Esta formação durou de 1982 a 1984, foi retomada em 1994 e depois se tornou um eterno vai-e-vem de músicos comandados por Fripp. Em 2013, no entanto, o guitarrista retomou o King Crimson sem Adrian Belew. “Meu papel ali sempre foi ser o cara legal. Cumprimentar a plateia e falar: ‘Olha, não há nada de errado em gostar de nós’”, brinca. “Existe um lado sombrio no King Crimson e Robert parece gostar disso”, encerra a discussão.

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O Adrian Belew Trio existe há dezoito anos e sua formação conta com o baterista Tobias Ralph e com a baixista Julie Slick. O grupo tem apenas um disco lançado. E foi lançado em 2009 e é composto basicamente de música instrumental. O guitarrista pensa em gravar um disco com sua nova formação. Ele, porém, tem outras prioridades. Por exemplo, criou a trilha sonora de Piper, um desenho da Pixar que antecede ao longa metragem Procurando Dory. O trabalho custou três anos da vida de Belew e diversas conversas com o diretor do curta e com o compositor que transcreveu a música do guitarrista para ser tocada pela orquestra. “Eu amo a Pixar. Eles são o King Crimson dos desenhos”, jacta-se. No Carioca, no entanto, não haverá espaço para bichinhos fofos. Adrian Belew e seus dois músicos passeiam pelos grandes momentos da carreira do guitarrista. “Tem Zappa, tem Bowie, tem King Crimson, tem carreira solo… Será uma diversão”. Os fãs da escola Adrian Belew de guitarra contam desesperadamente com isso. Os ingressos ainda estão à venda e podem ser adquiridos pelo site http://www.clubedoingresso.com/adrianbelewpowertrio e em pontos de venda autorizados (no caso, a bilheteria do Carioca, localizada na rua Cardeal Arcoverde, 2899, próximo ao metrô Faria Lima).

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