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VEJA Música Por Sérgio Martins Música sem preconceito: de Beethoven a Pablo do arrocha, de Elis Regina a Slayer

Por que assistir Janis: Little Girl Blue

Documentário sobre a carreira da cantora de blues agrada até pessoas que não gostam de sua música

Por Sérgio Martins - Atualizado em 8 fev 2017, 16h30 - Publicado em 29 jul 2016, 16h41

Não suporto Janis Joplin (1943-1970). Nunca gostei. Implico com a aura hippie, com o festival de gritos e com as bandas amadoras que a acompanhavam – ela tinha um dedo incrivelmente podre para escolher músicos e namorados. Entre os admiradores da cantora texana, não há quem não sinta um frisson ao escutar Summertime, versão para o clássico de George Gershwin. Eu, embora nutra alguma simpatia pela releitura, me incomodo com o arranjo mal feito e a falta de talento da Big Brother & the Holding Company, que com a ascensão artística de Janis, passou de uma banda de blues de boteco de San Francisco para uma mera acompanhante de sua vocalista. Em resumo, não gosto e tenho dúvidas se voltarei a colocar um disco dela para tocar – a não ser, claro, por motivos profissionais. Embora eu tenha acabado de expressar a minha aversão para a visão artística de Janis Joplin, não deixo de aplaudir Janis: Little Girl Blue (Estados Unidos, 2015), em cartaz nos poucos e bons cinemas do país. Dirigido por Amy J. Berg, que tem no currículo uma indicação ao Oscar por Deliver us from Evil, documentário sobre casos de pedofilia na igreja católica, o filme funciona por mostrar uma Janis longe da adulação hippie e da visão de fã que se tornaram constantes em toda produção que tenta recontar sua história. Na visão acertada da cineasta, interessa muito mais entender como a cantora se tornou um dos ícones dos anos 1960 do que bombardear o telespectador com performances icônicas em festivais como Woodstock e Monterey. E olha que nem tudo é blablablá: há cenas raras e inéditas de shows e apresentações em televisão.

Janis Little Girl Blue (8)

Em determinado momento de Little Girl Blue, é lida uma das várias cartas que a intérprete de Me and Bobby McGee manda para a família (no filme, elas ganham a voz de Chan Marshall, cantora que também tem uma aura de doidinha e demônios pessoais para combater). Embora já fosse uma artista de grande expressão, ela pede desculpas aos pais por ser um “desapontamento”. Ali, finalmente se revela o dilema que já havia sido exposto – de modo discreto ou não – em boa parte do filme. Janis Lyn Joplin, no fundo, era um ser humano em busca de aceitação. Nascida em Port Arthur, no Texas, cidade que tinha orgulho de seu apoio à organização racista Klu Klux Klan, ela tinha uma alma negra demais para ser aceita pelos locais, seu tipo físico cheinho e repleto de acnes não a credenciava para ser uma cheerleader e muito menos rainha do baile do colégio (para o qual, aliás, nem foi convidada) e sua tendência à rebeldia e paixão pelo blues frustravam o sonho de seus pais, que desejavam que Janis fosse uma acomodada dona de casa. Esta inadequação irá se refletir em suas relações amorosas e profissionais. Na visão fantasiosa da cantora, qualquer tórrida noite de amor ou um romance de ocasião era um compromisso para toda vida. A carência de Janis também se refletia na hora de lidar com os músicos de suas três bandas (Big Brother and the Holding Company, Kozmic Blues Band e Full Til Boogie Band). Incapaz de ser uma band leader, ela muitas vezes prejudicou sua sonoridade por conta de uma relação fraterna entre os instrumentistas. Se por um lado essa carência a fazia se expressar como poucas em letras que falavam de desilusões amorosas, por outro a levou para o pantanoso mundo das drogas. O álcool e a heroína aplacavam suas dores interiores e em certas ocasiões se tornaram companheiros para driblar a solidão dos quartos de hotel. No Brasil (ou “as selvas do Brasil”, como se refere preconceituosamente um apresentador americano), ela chegou a encontrar um namorado. Eles viajaram até o Nordeste, fizeram planos, mas o romance terminou porque o sujeito não suportou o vício dela em drogas pesadas.

Janis Joplin era uma voz poderosa à procura de orientação. Little Girl Blue é exemplar quando exibe um depoimento de D.A. Pennebaker (autor do documentário Monterey Pop, sob o festival que revelou ela e Jimi Hendrix para o mundo e no qual ela quase ficou de fora por causa do amadorismo de seu empresário). Pennebaker revela que era fã de Janis, porém se sentia incomodado ao perceber os problemas dela com ritmo e afinação. E de como conseguia até piorar sua performance por conta de sua, digamos, “empolgação”. O duro é constatar que essas deficiências poderiam ter sido resolvidas antes de Janis gravar seu primeiro disco – mas ela preferiu dar ouvidos aos companheiros de banda ao invés de se arriscar com um produtor desconhecido. O mesmo produtor (Paul Rothchild), aliás, que trabalhou com Janis em Pearl (1971), seu melhor álbum e um prenúncio da grande intérprete que ela poderia se tornar. Contudo, no dia 04 de outubro de 1970, Janis Joplin não apareceu para uma sessão de gravação. O tour manager John Cooper Clarke foi ao encontro da cantora no hotel em que ela estava hospedada e a encontrou morta, vítima de uma combinação de álcool e heroína. As derradeiras gravações estão registradas ao Pearl, até hoje o disco mais vendido de sua carreira. Sua curta trajetória a credenciou para o Hall da Fama do rock’n’roll. Mas, confesso, não conquistou inteiramente meus ouvidos e meu coração (ainda que eu goste de performers igualmente trágicas, como Dusty Springfield e Aretha Franklin). Quer dizer, até que estou com vontade de escutar Pearl

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