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VEJA Música Por Sérgio Martins Música sem preconceito: de Beethoven a Pablo do arrocha, de Elis Regina a Slayer

Os 70 anos de Belchior. Sem direito a comemoração

Cantor e compositor cearense encontra-se desaparecido desde 2009. Mas uma caixa de CDs ajuda a matar as saudades dele

Por Sérgio Martins Atualizado em 30 jul 2020, 21h28 - Publicado em 26 out 2016, 18h30
Belchior, cantor e compositor.Belchior, cantor e compositor.

Quando Fagner veio gravar o VEJA Música, em outubro de 2015, conversamos rapidamente sobre Belchior. O cantor cearense contou então um causo que teve uma participação involuntária de Juca Ferreira, ex-ministro da Cultura do governo Lula e ex-secretário de Cultura de Fernando Haddad. Corria o ano de 1971 e Belchior havia ganho IV Festival Universitário de MPB com A Hora do Almoço. Os dois foram comemorar a vitória num bar do Rio de Janeiro e Belchior então exclamou: “A gente ainda vai mostrar que a música nordestina não se resume aos artistas da Bahia.”

  • O baiano Ferreira, que estava numa mesa próxima à dupla, recordou o episódio tempos depois, durante um encontro com Fagner. Mas a promessa da dupla não se perdeu em meio à embriaguez da vitória no festival. Fagner caiu nas graças do casal Ronaldo Bôscoli e Elis Regina – que cantou Cavalo Ferro e Mucuripe, além de Noves Fora, parceria de Fagner com Belchior. O intérprete de Revelação e Noturno, entre outros sucessos, abriu espaço para uma nova geração de artistas nordestinos, como os paraibanos Zé e Elba Ramalho e os pernambucanos Alceu Valença e Robertinho do Recife. Belchior também foi gravado por Elis – Velha Roupa Colorida e Como Nossos Pais – lançou os clássicos Alucinação (1976) e Coração Selvagem (1977), os ótimos Todos os Sentidos (1978), e Objeto Direto (1980), os irregulares Melodrama e Elogio da Loucura (1987 e 1988, respectivamente) e… e mais nada. Sumiu, escafedeu-se. Desde 2009, quando um site de notícias alertou sobre o seu desaparecimento, que Antonio Carlos Gomes Belchior Fontenelle Fernandes sumiu da vista dos amigos, do público e dos credores. Seu destino é incerto, as aparições dele são relatadas como o mesmo grau de histeria daqueles que encontram Elvis Presley na fila do supermercado ou na embalagem do leite. 2016 é o ano em que se comemoram duas datas importantes na carreira do compositor e intérprete cearense: seu aniversário de 70 anos (completados hoje, 26 de outubro) e as quatro décadas de Alucinação. Em circunstâncias, digamos, normais, seriam efemérides para ganhar matérias de jornal e pelo menos um grande perfil exaltando as qualidades do cantor e compositor que meu amigo Assis Ângelo (jornalista, biógrafo de Luiz Gonzaga) definiu como “o principal intelectual da música brasileira”. Sem a presença de Belchior, no máximo rende matérias lamentando o seu desaparecimento.

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    http://veja.abril.com.br/tveja/veja-musica/fagner-o-maior-cantor-brasileiro/

    Mas, pensando bem, até que dá para relembrar os 70 anos do autor de Paralelas sem relembrar sua migração das páginas do caderno de cultura para o noticiário policial – seu desaparecimento, seus calotes em hotéis, estacionamentos de aeroporto, funcionários e familiares. A Universal está lançando Três Tons de Belchior, uma caixa que, como o nome indica, traz três discos do cantor. Um deles é o já citado Alucinação. Produzido por Mazzola e com arranjos de José Roberto Bertrami, do trio Azymuth, ele foi uma aposta de Mazzola e de Belchior (a história está muito bem explicada no encarte que acompanha a caixa). A PolyGram não apostava no talento do cantor e Mazzola sugeriu então que a companhia assinasse o autor cearense por apenas um disco. E que disco. Musicalmente é um trabalho perfeito, no qual os timbres de teclado de Bertrami brincam com o baião (Sujeito de Sorte) e promovem um casamento com a steel guitar em Velha Roupa Colorida. É também o disco que concentra os maiores sucessos de Belchior: além de Velha Roupa Colorida estão ali Apenas um Rapaz Latino Americano, Como Nossos Pais e A Palo Seco – regravação do compacto que ele gravou dois anos atrás pela gravadora Continental. Nas letras, além de um sentimento de inadequação (Belchior nutria uma predileção pelas figuras à margem da sociedade), e uma espécie de acerto de contas com a geração dos anos 60, que prometia então mudar o mundo.

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    O principal problema de Melodrama (1987) e Elogio à Loucura (1988) está na produção típica daquele período. Havia uma predileção por teclados eletrônicos (vide os discos de Fagner e de Gilberto Gil daquele período, por exemplo) que soam enfadonhos e irritantes se ouvidos nos dias de hoje. Mesmo boas canções como Todo Sujo de Batom e Balada de Madame Frigidaire se perdem em meio ao excesso de teclados e uma superprodução. Os álbuns marcaram o início do processo de decadência criativa de Belchior. Com o tempo, sua carreira sobreviveu à base de releituras e alguns lampejos de criatividade. Que não descredenciam sua alta patente no universo da MPB. Seja através de seus discos mais importantes ou em álbuns tributo (como a coletânea Ainda Somos os Mesmos, de 2014, no qual artistas do indie rock coverizam suas principais composições), Belchior tem seu lugar na história dos compositores mais criativos do país. E sua ausência faz falta. Resta torcer para que ele saia do auto exílio com a tão sonhada tradução em português de A Divina Comédia, do poeta italiano Dante Alighieri – um dos motivos pelos quais ele teria se isolado do mundo. Belchior faz falta.

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