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Os 20 anos de um clássico da soul music

Obra-prima do cantor Maxwell, Urban's Hang Suite até hoje influencia a música negra americana

Por Sérgio Martins Atualizado em 30 jul 2020, 23h07 - Publicado em 2 abr 2016, 19h15

O Palace Theater é uma antiga e luxuosa casa de espetáculos de Albany, capital do estado de Nova York. Construída inicialmente para abrigar as produções da RKO, um dos maiores estúdios de cinema de Hollywood, ela foi comprada pela prefeitura da cidade no final dos anos 1969 e passou por duas grandes reformas até se tornar um disputado ponto de entretenimento. Um desses eventos foi a apresentação de Maxwell, em junho de 2014. Ele tem uma carreira irregular: ponta de lança da geração de revisionistas da soul music americana no início dos anos 1990 (ao lado de Erykah Badu e D’Angelo), o cantor passou anos fora dos holofotes por causa de uma depressão. Quando subiu ao palco do Palace, fazia cinco anos que não lançava um novo disco. Até suas apresentações são esporádicas. O auto exílio do soulman, no entanto, não impediu que o publico lotasse os 2 844 lugares do teatro. E que cantasse, dançasse, gritasse e soltasse seus “Maxwell, estou aqui!” quando ele reclamava da falta de um novo amor. O porquê dessa adoração restrita tem nome: Maxwell’s Urban Hang Suite, que hoje completa duas décadas de existência.

No mundo da crítica musical, exige-se cautela antes de classificar um disco como “clássico” ou “obra-prima”. Maxwell’s Urban Hang Suite, no entanto, merece todos os predicados. Desencadeou uma onda revisionista na música negra americana, que foi assimilada tanto pelos artistas daquele período (os já citados D’Angelo e Badu, e mais os soulmen Bilal e Anthony Hamilton) como também no Brasil – a guitarra de Max de Castro em Samba Raro, seu disco de estreia, lançado em 1999, traz semelhanças com as guitarras do álbum de Maxwell. A influência não se resume apenas à sonoridade, embora ela tenha se tornado uma das marcas registradas do “som Maxwell”. Nas letras existe entrega e paixão e muitas vezes o homem assume uma atitude submissa em relação à mulher (dá para imaginar isso no ano do auge do gangsta rap?). Hoje em dia, praticamente todo trabalho que emula o soul tradicional traz em seu DNA algo de Urban Hang Suite – do romantismo de um Mayer Hawthorne ao gritos de uma Joss Stone, para ficarmos entre os mais populares.

Maxwell’s Urban Hang Suite foi gestado durante dois anos até finalmente chegar às lojas no dia 02 de abril de 1996. Por uma ironia (creio que não foi intencional), é a data de nascimento de Marvin Gaye, cantor e ícone da Motown, principal gravadora americana dedicada à música negra. Ele também guarda semelhanças com duas obras-primas de Gaye, Let’s Get it On, de 1973, e Here, My Dear, de 1978. Nesses álbuns, o astro da Motown vai do desespero para consumar uma paixão ao relato do final de um casa

Maxwell concert at Staples Center on June 5, 2010 in Los Angeles, California.  Credito: Juan Ocampo

Maxwell concert at Staples Center on June 5, 2010 in Los Angeles, California.
Credito: Juan Ocampo

mento, com toda lavação de roupa suja a qual tinha direito – que no final lhe rendeu um processo de invasão de intimidade por parte da ex-mulher. Maxwell’s Urban Hang Suite condensa a dor e o êxtase num único álbum. Basicamente, o personagem principal (o próprio Maxwell, visto que ele confessou ter passado muitas das suas experiências pessoais para as letras do disco) sai para a balada, encontra a mulher de seus sonhos, eles se separam, o rapaz não consegue viver sem a moça, os dois se reencontram e ele pede para que ela case com ele. Lido assim, pode ser algo tão banal quanto as letras de pagode romântico. Mas vamos imaginar que os temas tenham recebido o auxílio de Stuart Mathewman (guitarra, saxofonista e diretor musical da banda da nigeriana Sade), as letras de Leon Ware (parceiro de Marvin Gaye no disco I Want You, de 1976, e que colaborou com os brasileiros Marcos Valle e Lucas Arruda) e a guitarra de Melvin “Wah Wah” Watson, guitarrista dos estúdios da Motown. E que canções como Sumthin’ Sumthin’ e Ascension (Don’t Ever Wonder) tenham sido produzidas com uma linha de baixo irresistível e que ‘Till the Cops Come Knockin’ traga um dos trabalhos de guitarra mais sensuais de Watson? Maxwell também é um talento à parte: voz em falsete, deliciosamente contido e sensual numa época em que os gritos e melismas estavam em alta no moderno rhythm’n’blues norte americano. Se eu não cheguei a berrar por Maxwell, me permiti fazer minha loucura para vê-lo ao vivo. Eu estava numa outra cidade, fui de trem para Nova York, encarei quatro horas de ônibus até Albany, assisti ao show e peguei o último ônibus para Nova York. Por que? Por causa de Maxwell’s Urban Hang Suite.

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