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King Crimson e a “matemática” peculiar do rock progressivo

Termina uma espera de 50 anos: o grupo inglês faz sua estreia no Brasil em apresentações no Espaço das Américas (São Paulo) e no Rock in Rio.

Por Sérgio Martins 3 out 2019, 17h48

Uma das minhas frases prediletas de Robert Fripp, líder e guitarrista do King Crimson, é que eles fazem música para a cabeça e não para os pés. De fato, as criações da banda inglesa surgida em 1969 se assemelham a um cálculo matemático: são de uma precisão assustadora num estilo – o rock progressivo – onde uma nota errada ou uma virada grosseira de bateria botam tudo a perder. O grupo finalmente faz sua estreia nos palcos brasileiros nessa semana (Fripp, o baterista Pat Mastelotto e o baixista Tony Levin já tinham vindo aqui, mas em eventos isolados). Tocam na sexta 4 no Espaço das Américas, em São Paulo (https://site.ingressorapido.com.br/kingcrimson/). Domingo, fazem uma performance reduzida no Rock in Rio, numa noite que trará ainda Muse, Nickelback e Lulu Santos.

Minha conversão ao King Crimson se deu de forma tardia, em 1982. No ano anterior, o grupo lançou Discipline, álbum no qual Fripp e o baterista Bill Brufford, remanescentes da última formação, se uniram a Levin e ao guitarrista Adrian Belew. Ex-Frank Zappa, David Bowie e Talking Heads, Belew garantiu ao conjunto uma sonoridade mais palatável, ainda que não perdesse o lado experimental. Numa entrevista que fiz com o guitarrista dois anos atrás, ele disse que outra grande colaboração foi dar um ar mais simpático ao King Crimson, conhecido pela aura sisuda. “Mostrei que não havia problema algum em gostar de nós”. Fripp & cia caminharam em direção ao pop após Discipline. Beat e Three of a Perfect Pair, seus lançamentos seguintes, brincavam com baladas radiofônicas e até o funk – ainda que o lado B do vinil de Three seja todo instrumental. Por outro lado, fiz o caminho inverso e corri atrás de seus lançamentos anteriores. Da psicodelia de In the Court of the Crimson King, seu álbum de estreia, de 1969, ao peso de Red, de 1974. E principalmente The Lark’s Tongues in Aspic (1973), melhor disco do King Crimson – uma fusão perfeita de rock, jazz e música clássica (a faixa-título foi levemente inspirada em The Lark’s Ascending, do compositor inglês Ralph Vaughan Williams).

 

Os diversos universos musicais do King Crimson convivem harmoniosamente nessa nova turnê, que comemora o aniversário de 50 anos do grupo. A importância da data, aliás, serviu para que Fripp desencanasse de sua aversão às plataformas de streaming e colocasse toda a discografia do conjunto à disposição das novas tecnologias. Eu assisti ao King Crimson cinco anos atrás, no Teatro Colonial, em Boston, e foi um massacre. Três bateristas (hoje possuem um quarto, que também se reveza no teclado) e veteranos de encarnações anteriores, como o baixista Tony Levin e o saxofonista Mel Collins – que tocou em Islands, Lizard e Earthbound, lançados entre 1970 e 1972. Jakko Jakszyk, que integrou uma banda-tributo ao King Crimson, assume as guitarras e os vocais. O concerto de Boston privilegiou The Lark’s Tongues in Aspic: três das dezenove canções foram dedicadas ao clássico álbum de 1973. A nova turnê, contudo, prefere privilegiar a estreia do conjunto, que completa 50 anos de idade no próximo dia 10: quatro das vinte canções saem de In The Court of the Crimson King. Mas um detalhe da apresentação permanece intacto: telefones celulares estão terminantemente proibidos. Afinal, exige concentração apreciar uma banda que sempre privilegiou o cérebro à dança.

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