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VEJA Música Por Sérgio Martins Música sem preconceito: de Beethoven a Pablo do arrocha, de Elis Regina a Slayer

Johnny Clegg, uma voz contra o apartheid

Cantor sul africano, morto dia 16, usou a música para lutar contra a intolerância racial na África do Sul. Seu maior sucesso foi dedicado a Nelson Mandela

Por Sérgio Martins - 17 jul 2019, 17h57

 

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Na segunda metade dos anos 80, houve uma explosão de música africana no Brasil. A extinta TV Manchete colocou no ar African Pop, uma série de documentários sobre a cena daquele continente, com direção de Belisário França e narração de Zezé Motta; o nigeriano King Sunny Adé apresentou sua ju ju music no Free Jazz Festival e vinis de artistas africanos foram despejados no mercado. Havia estilos para todos os gostos. A ju ju music do também nigeriano Ebenezer Obey; a mbalax, música de origem sacra do senegalês Youssou N’Dour; o estilo griot do malinês Salif Keita e do guineense Mory Kanté e o pop do Touré Kunda. Johnny Clegg & Savuka, da Àfrica do Sul, estavam entre os meus prediletos por causa da mistura entre a sonoridade do povo zulu com ritmos urbanos como rock e o pop. Mas Clegg, morto na terça, dia 16, de câncer no pâncreas, tinha pretensões maiores do que se tornar um astro de primeira grandeza do showbiz. Clegg foi uma das principais vozes contra o apatheid que grassava então na África do Sul – empenho que lhe valeu o epíteto de umlungu omnyama, ou seja, o “negro branco”

 

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Clegg nasceu em Bacup, município da inglesa Lancashire, mas suas origens são africanas – a mãe dele era uma cantora branca de jazz, nascida no Zimbábue. Com o divórcio dos pais, ele se mudou com ela para aquele país africano e posteriormente para Joanesburgo, na África do Sul. Clegg, então adolescente, se apaixonou pela música tocada pelos povos da nação zulu, que tinham se mudado para capital em busca de melhores condições de trabalho. “Havia uma identificação. Eles eram migrantes, assim como eu, e fomos forçados e viver numa terra estranha”, declarou. Em 1969, formou o Juluka ao lado do guitarrista Sipho Mchunu. Durante os anos do apartheid, a integração entre brancos e negros não era apenas desestimulada, como proibida. O grupo foi proibido se tocar nas rádios locais, era constantemente assediado pela polícia sul africana. As dificuldades, no entanto, não impediram o Juluka de obter uma boa popularidade fora do país, tendo inclusive um vídeo tocado em terras brasileiras. Eles terminaram em 1985, quando Mchunu decidiu voltar para a sua família, que residia na região rural da Àfrica do Sul.

 

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O Sakuva, grupo que Johnny Clegg formou após a dissolução do Juluka, tinha uma toada mais pop. O seu discurso, no entanto, era ainda mais virulento do que o projeto anterior do cantor. Uma das canções emblemáticas daquele período é Asimbonanga (Eu Não o Tenho Visto), de 1987, um protesto contra a prisão do líder negro Nelson Mandela, que era mantido preso em Robben Island. Tempos depois, Clegg tocaria seu hit com a participação do próprio Mandela na plateia. A música do Savuka era feita com conhecimento de causa. Clegg era formado em antropologia, com foco na cultura zulu. As apresentações do grupo – bem como os solos de seu líder, que chegou a tocar no Brasil nos anos 90 – eram uma aula sobre a riqueza cultural da África do Sul, com direito a performances de dance. O Savuka terminou em 1992, depois que o guitarrista Dudu Zulu foi assassinado a tiros.

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Em 2015, Johnny Clegg recebeu o diagnóstico de câncer no pâncreas. Ele cancelou suas apresentações e iniciou um tratamento contra a doença. Dois anos atrás, saiu numa turnê de despedida do palco e da vida, vindo a morrer no dia 16 de agosto, aos 66 anos. Clegg é sinônimo de música feita em tempos duros e intolerantes, uma voz contra a opressão. Talvez seja necessário escutar Juluka e Savuka mais do que nunca.

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