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Cabaré Beatles

Espetáculo em cartaz no Teatro Folha (Shopping Pátio Higienópolis) recria de maneira divertida os clássicos do quarteto de Liverpool

No início de agosto, o diretor teatral Claudio Botelho me convidou para assistir às audições do musical Beatles Num Céu de Diamantes. Um dos fenômenos da história recente do gênero por aqui, o espetáculo, que completa dez anos em cartaz no início de 2018, arrastou nada menos do que 700 000 pessoas que se regozijaram para ver e ouvir versões criativas dos clássicos do quarteto de Liverpool. Mais de volta aos testes, a produção recebeu 400 vídeos dos candidatos ao elenco. Desses, 40 passaram para a próxima etapa, que seria conduzida por Botelho.

A primeira vez que participei de uma audição foi em Rent, no ano de 1999. Os cantores e atores daquele período não tinham muita ideia de como era um musical da Broadway, ainda mais um como Rent – que exige um vocal gritado, mais próximo do rock do que do canto lírico. O elenco que foi escolhido, no entanto, brilha até hoje. Alessandra Maestrini, Bianca Tadini, Andreia Marquee e Jarbas Homem de Mello são alguns dos que passaram pela produção. Atualmente, esses espetáculos atraem um tipo de profissional melhor preparado, ainda que aconteçam alguns imprevistos. Um dos candidatos, por exemplo, passou a música inteira se coçando. Outra preferiu fazer solos ao violão a interpretar uma canção. Em alguns casos, Botelho até deu conselhos preciosos: para um menino que insistia em cantar algo que exigia uma voz negroide, ele sugeriu uma leve mudança de repertório. Outro que tinha o timbre nasal, saiu com um leque de sugestões de personagens que se adequariam melhor ao seu registro vocal.

A maratona gerou pelo menos seis ótimas descobertas. Carol Pita, uma menina de vinte anos, que arrebatou a banca com uma versão sapeca de When I’m 64; Diego Martins, um menino de 21, cuja Oh Darling tinha até os gritinhos à la Little Richard de seu intérprete original, Paul McCartney; Ingrid Gaigher, cantora de voz negroide e sensualidade, que fez sua versão de Oh Darling como se fosse gravada por Tina Turner;  Nikki, intérprete criada na dance music, que brilhou na mesma canção escolhida por Martins e Ingrid – e que, a pedido de Botelho, trouxe ainda uma versão linda de Something, de George Harrison. A boa safra daquela tarde foi completada por dois cantores de muita entrega e talento: Felipe Mafra, que tem uma carreira como artista pop, e o novato Daniel Klepacz. A eles juntaram-se outras três escolhas de Botelho, todos extremamente talentosos: Andrei Lamberg, Giovana Moreira e Carol Bezerra. Nikki abandonou a produção porque tinha outros compromissos profissionais – Carol Pita, que apesar da boa impressão tinha ficado de fora, acabou entrando em seu lugar.

Os ensaios foram realizados no Teatro dos Arcos, na Bela Vista, zona central de São Paulo. Foi ali que vi as canções ganharem forma e me encantei com a preocupação de Botelho com cada detalhe do musical: que ia desde a pronúncia certa e o cuidado com as expressões e a preocupação de passar o sentido de cada música. Este esmero, que eu tinha visto apenas como espectador – perdi as contas de tanto que assisti aos espetáculos de Moeller e Botelho – continuou numa apresentação teste em Valinhos, no interior de São Paulo (Beatles estreou duas semanas depois no Teatro Folha, localizado no Shopping Pátio Higienópolis). Mas foi em Valinhos, em meio a um local inadequado – era a Câmara dos Vereadores da cidade – e um som precário, que se desenhou a encantadora versão que está em cartaz na cidade. Botelho criou um Cabaré Beatles, que está muito mais para um espetáculo de vaudeville da Inglaterra do início do século passado do que o porão esfumaçado do Cavern Club, onde os Beatles iniciaram sua carreira rumo ao estrelato após penarem nos inferninhos de Hamburgo.

A escalação atual de Beatles Num Céu de Diamantes ajuda muito essa nova concepção. A começar por Diego Martins, cuja Oh Darling – a música era dele desde que ele a cantou naquela audição – o permite fazer uma ótima interação com a plateia; há ecos de Shirley Bassey na voz e na postura de Carol Bezerra, cujas While My Guitar Gently Weeps e Here, There and Everywhere são de levantar a plateia; Andrei Lamberg tem a doçura necessária para cantar Michelle e esbanja petulância na versão de Come Together; Ingrid Geigher, uma espécie de Louise Brooks cabocla, surge de maneira ímpar numa Eleanor Rigby cuspida com a fúria dos solitários; Carol Pita e Giovanna Moreira são duas princesas da Disney do século XXI: aliam graça, doçura e um ótimo alcance vocal, e Felipe Mafra e Daniel Klepacz combinam talento e sex appeal em The Long and Winding Road e Something. Destaca-se ainda as boas ideias musicais de Botelho, como citar Cais, de Milton Nascimento e Ronaldo Bastos em While My Guitar, e Chovendo na Roseira, de Tom Jobim, como prenúncio de The Long and Winding Road. Beatles Num Céu de Diamantes não tem texto, mas é muito mais do que um catadão de músicas do quarteto de Liverpool jogados ao léu. É uma deliciosa forma de repensar o catálogo do maior grupo pop de todos os tempos. A vida é um cabaré Beatles.

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