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‘Black Sabbath’, disco que deu origem ao heavy metal, faz 50 anos

Com suas canções pesadas, com andamento soturno e letras macabras inspiradas em contos sobrenaturais, o quarteto inglês deu régua e compasso ao novo gênero

Por Sérgio Martins - 13 fev 2020, 17h18

O heavy metal nasceu na Inglaterra, no dia 13 de fevereiro de 1970. Era uma sexta-feira e foi um dia gélido e chuvoso, típico do inverno britânico. Naquela ocasião, chegava às lojas o disco de estreia de um quarteto de Birmingham chamado Black Sabbath. Formado por Ozzy Osbourne (vocais), Tony Iommi (guitarra), Geezer Butler (baixo) e Bill Ward (bateria), o grupo deu passos adiante em relação ao rock agressivo que estava sendo feito por bandas como o trio americano Blue Cheer e o grupo inglês Led Zeppelin. As sete canções do álbum eram pesadas, soturnas e por vezes marcadas por andamentos vagarosos. As letras iam de encontro ao otimismo e bom-mocismo dos hippies: eram marcadas por desespero, desesperança e pelo apelo ao sobrenatural. Basicamente, o Black Sabbath fez para o mundo da música o que Charles Manson – psicopata cuja gangue de degenerados trucidou a atriz Sharon Tate – fez para a sociedade e o show dos Rolling Stones em Altamont, que culminou com um adolescente negro sendo assassinado pela equipe de segurança, fez para o showbiz: mostrar que o mundo poderia ser um local muito perigoso para se viver. O peso e a agressividade da música, ao lado dos elementos de terror – fictícios ou não – das letras e o aspecto desgrenhado dos integrantes do grupo deu régua e compasso para o heavy metal. O gênero foi deglutido, digerido e adaptado pelas futuras gerações, mas o pioneirismo do Black Sabbath é indiscutível.

Birmingham, berço de Osbourne, Iommi, Butler e Ward, é um pólo industrial marcado por duas grandes tragédias. Foi a terceira cidade inglesa mais bombardeada durante a Segunda Guerra – perdeu para Londres e Liverpool como alvo predileto da Luftwaffe, temível esquadra aérea alemã. Nos anos 60, ainda era comum deparar com os escombros da destruição provocada pelos nazistas. Birmingham também foi escolhida pelo IRA (sigla do Exército Republicano Irlandês) para realizar atentados a bombas em pubs, no mês de novembro de 1974 – o ato terrorista matou 21 pessoas e feriu outras 182. Os quatro integrantes do grupo eram de classe média baixa e pelo menos um deles tinha flertado com a delinquência: Ozzy passou um tempo na cadeia por roubo. Iommi perdeu a ponta de dois dedos num acidente com o torno mecânico. O que para muitos músicos poderia ser uma sentença de incapacitação permanente, para ele foi uma maneira de criar um som original: uma técnica de “deslizar” os dedos danificados pelas cordas da guitarra. O guitarrista colocou ainda tampas de detergente para “encapar” o cotoco dos dedos, para que a fricção com as cordas não lhe causasse dor. Butler e Ward tinham como principais influências o blues e o jazz. O baixista trazia outro elemento fundamental para a criação da aura do Black Sabbath. Fã do escritor de terror Dennis Wheatley, criou letras inspiradas no clima macabro do ídolo. O quarteto foi batizado inicialmente como Polka Tulk e depois Earth. Mas, como havia outra banda com esse nome, adotaram o título de uma produção sobrenatural de 1963 do italiano Mario Bava. Nascia então o Black Sabbath. Outro detalhe curioso em torno do famoso “som” do grupo: como tocavam em bares repletos de frequentadores ruidosos, foram aumentando os decibéis de sua performance para serem ouvidos.

Divulgação/Divulgação

Black Sabbath, o álbum de estreia, foi gravado no dia 16 de outubro de 1969, numa sessão que durou doze horas. O que se escuta ali é praticamente uma performance ao vivo, tirando os efeitos da faixa-título – o sino, o som da chuva e o trovão – e os solos de guitarra dobrados em N.I.B. e Sleeeping Village. O material foi todo composto pelo quarteto, com exceção de Evil Woman, do grupo americano de blues rock Crow, e Warning, do inglês Aynsley Dunbar Relatiation. Escutadas hoje, elas soam como faixas meramente decorativas – ainda que Warning se torne uma jam session espetacular. O incrível, o fantástico, o extraordinário está no material da própria lavra do quarteto. Confirma-se isso no solo de gaita de Osbourne e na bateria “quebrada” de Ward (ele era um grande fã de Gene Krupa e Buddy Rich, mestres do jazz) em The Wizard, no baixo abissal de Butler em N.I.B., no canto de desespero de Osbourne na faixa-título e na guitarra aguda de Iommi, que passeia pelo disco inteiro. Custou para a crítica daquele período entender a nova sonoridade proposta pelo Black Sabbath. “Eu sabia que uma desgraça como essa aconteceria mais cedo ou mais tarde”, praguejou Robert Christgau, crítico da Rolling Stone, que então era aficionado por letristas com influências mais literárias. Mas o estrago havia sido feito: a partir de Black Sabbath, um novo gênero surgiria para mudar os caminhos da música.

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