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VEJA Música Por Sérgio Martins Música sem preconceito: de Beethoven a Pablo do arrocha, de Elis Regina a Slayer

Allen Toussaint (1938-2015)

O compositor e pianista americano ajudou a formatar a música de Nova Orleans da segunda metade do século 20

Por Sérgio Martins Atualizado em 31 jul 2020, 00h07 - Publicado em 12 nov 2015, 18h55

Como todo bom guerreiro, Allen Toussaint morreu de pé. Na última segunda-feira, após se apresentar no Teatro Lara, em Madri (uma das etapas da sua turnê europeia), o cantor, compositor e tecladista americano se sentiu mal no hotel em que estava hospedado. Houve tentativas para ressuscitá-lo, mas sem sucesso. Na manhã de terça-feira, a filha do compositor anunciou que seu pai havia morrido. Tinha 77 anos e estava planejando um show em conjunto com o amigo Paul Simon a fim de arrecadar fundos para os sem teto de Nova Orleans. Obituários apressados, no entanto,  enterraram música da cidade juntamente com o compositor. Ao tratarem Toussaint como “o último bastião cultural” da localidade, esqueceram de que Fats Domino, Ellis Marsalis e Dr. John, três referências do piano de Nova Orleans, ainda estão vivos – e no caso de Marsalis e John, bastante ativos. E a cena local tem espaço tanto para quem aposta numa linguagem mais tradicionalista, como a Preservation Hall Jazz Band e o trompetista Irvin Mayfield, como novidades do jazz e do funk. O grupo Galactic, o trompetista e trombonista Trombone Shorty e o trompetista Christian Scott estão entre os muitos artistas que mantém a chama cultural da cidade acesa e vibrante. A importância de Allen Toussaint foi criar um cenário musical propício para o surgimento desses nomes: ele formatou a música pop local, ao se aproximar de gêneros como o rhythm’n’blues, o rock e o funk. Toussaint também se considerava um discípulo do também pianista Professor Longhair, a quem definia como “O Bach de Nova Orleans”.

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O autor de sucessos como Yes We Can (transformado em slogan de campanha pelo então candidato à presidência Barack Obama), From a Whisper to a Scream e Southern Nights tem origem creole – nome dado aos filhos e descendentes de colonizadores franceses e espanhóis. Nascido a 14 de janeiro de 1938, ele começou como músico de estúdio, substituindo o pianista Huey Piano Smith numa turnê. Em 1958, lançou seu primeiro disco, o instrumental The Wild Sound of New Orleans, onde assinou com o nome de Tousan. Bastou uma canção do álbum, Java, se tornar sucesso com a versão do trompetista Al Hirt para que Toussaint passasse a trabalhar como compositor e arranjador de estúdio. Trabalhou com artistas locais como Lee Dorsey (uma parceria de sucesso) e Irma Thomas e suas criações caíram no gosto de roqueiros ingleses como Rolling Stones e The Yardbirds. O compositor, então, passou a ser gravado por todo mundo que importava no universo do pop e do rock. Na década de 70, retomou sua carreira como solista.

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Allen Toussaint teve a casa destruída pelo furacão Katrina, em setembro de 2005. Ele se refugiou em Nova York, onde fazia shows de piano e voz no Joe’s Pub (que se transformariam no disco Songbook, de 2013), e gravou The River in Reverse, ao lado de Elvis Costello. Em agosto do ano passado, Allen Toussaint se apresentou no festival de jazz da casa noturna Bourbon Street, ao lado dos cantores Glen Andrews e Germaine Bazzle. Ao final de cada performance, ele premiava a plateia com badulaques do Mardi Grass, o carnaval da sua cidade. Cônscio da importância de sua música, Toussaint se negava a dar esses regalos para os mal educados que insistiam em falar durante a sua apresentação. A morte de Allen Toussaint é uma perda enorme para a música do mundo e de Nova Orleans. Mas seus discípulos cuidarão de levar adiante o gênero que ele consagrou.

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