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A Portuguesa do thrash metal

Por Raquel Carneiro Atualizado em 30 jul 2020, 23h40 - Publicado em 22 jan 2016, 14h42

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Você já ouviu falar na Portuguesa de Desportos? Não? Pois muito antes de se tornar essa agremiação claudicante, que patina na terceira divisão do Campeonato Brasileiro e na segunda divisão do Campeonato Paulista, a Portuguesa montou grandes equipes de onde saíram nomes como o zagueiro Djalma Santos, os atacantes Leivinha e Eneas e os meias Edu Marangon e Dener. O time, no entanto, nunca teve uma coleção de títulos dignos das equipes que formou – no máximo um Campeonato Paulista, em 1973, dividido com o Santos de Pelé. O Exodus, que está no Brasil para mais uma turnê (a saber, dia 22 em Fortaleza, dia 23 em Manaus, dia 24 em São Paulo, dia 26 em Belo Horizonte, dia 27 em Curitiba em dia 28 no Rio de Janeiro) é a versão thrash metal da Portuguesa de Desportos – e isso não é demérito para o grupo, muito menos para a agremiação.

O grupo, que revelou entre outros, o guitarrista Kirk Hammett (Metallica) e teve Paul Bostaph (Slayer) entre seus integrantes, foi um dos pioneiros do thrash metal da região de San Francisco, na Califórnia. A importância do Exodus, contudo, nunca se equiparou com a sua popularidade: eles estão a muitos patamares de riqueza e admiração abaixo de Metallica, Slayer e Megadeth, que hoje compõem a primeira divisão do thrash metal. “Nós estamos satisfeitos com a posição que ocupamos hoje no universo do heavy metal, mas se eu fizer uma auto avaliação, certamente consigo identificar cada erro que cometemos”, diz Steve “Zetro” Souza, vocalista do grupo.

Muitas dessas mancadas são perceptíveis para quem acompanha a carreira do quinteto americano. Seu álbum de estreia, Bonded Bly Blood, de 1985, é tido como um dos clássicos do thrash metal. Mas demorou mais de um ano para chegar às lojas – e quando isso aconteceu, o Metallica já tinha lançado Kill ‘Em All (1983), disco que ajudou a divulgar a nova vertente do heavy metal. As inúmeras trocas de integrantes também fizeram com que o Exodus fosse marcado por uma discografia irregular, que alterna boas coleções de pancadarias com uma reunião de faixas bisonhas. Por lado, eles têm uma das sonoridades mais exemplares do thrash metal. As guitarras são uma combinação do estilo agressivo do grupo alemão de heavy metal Accept com solos inspirados no pioneiro Judas Priest (principal influência do Exodus, ao lado das bandas de new wave of british heavy metal). E suas letras são odes ao thrash e ao estilo de vida dos adeptos do gênero. Caso de Bonded By Blood, faixa-título de seu famoso álbum de estreia.

O cantor de 51 anos integra a formação clássica do Exodus, ao lado do guitarrista e líder Gary Holt e do baterista Tom Hunting. Souza veio do Testament, outro ícone do thrash metal californiano. “Eu sempre pertencerei ao Testament, escrevi canções para os dois últimos álbuns deles e circulo pela aura do grupo”, orgulha-se. Ele passou três vezes pelo Exodus. Em 1986, substituiu o cantor original, Paul Baloff. Ficou até 1992 e retornou uma década depois para um curto período de dois anos para depois retornar em 2014. Souza tem um estilo vocal particular, lembra uma versão mais aguda de Bon Scott, lendário cantor do AC/DC. E ao contrário de muitos cantores de rock pesado, ainda consegue interpretar as músicas do Exodus no tom original. “O segredo está em dormir bem. Eu não faço muita farra quando estou na estrada, prefiro descansar.” Quando Souza reassumiu os vocais no quinteto, eles estavam no final das gravações de Blood In, Blood Out (2014), 12º disco do grupo. O vocalista perdeu, por exemplo, a sessão que teve a participação de Kirk Hammett. “O solo dele em Salt of the Wound é perfeito. Fazia tempo que ele queria tocar novamente num disco do Exodus.” A atual turnê brasileira traz cinco canções de Blood In, Blood Out, combinadas a clássicos do quinteto.

Em 2011, Gary Holt foi recrutado para substituir Jeff Hanneman como guitarrista do Slayer. Hanneman teve de sair da banda depois de ter sido diagnosticado com fasciite necrosante, causada por uma picada de aranha (o bicho o infectou com uma bactéria devoradora de carne). O bico se tornou permanente em 2013, quando Hanneman morreu de falência hepática – a aranha não tem culpa, o guitarrista passou a beber além da conta. “A gente não se importa com essa divisão, ela tem funcionado bem. Não é de se admirar que o Slayer tenha convidado Gary para fazer parte da banda, ele é o cara quando se trata de thrash metal.” Holt não veio para a turnê brasileira. “O substituto dele é Krager Lum, que toca as criações de Holt nota por nota. Se você fechar os olhos, nem irá perceber a diferença”, diz Souza. Mesmo desfalcado de seu guitarrista titular, não se deve duvidar da capacidade do Exodus em incendiar uma plateia. Porque a exemplo do time da zona norte de São Paulo, eles são hábeis em proporcionar momentos mágicos a seus admiradores. Tão mágicos quanto um gol de Eneas ou Dener nos bons tempos da Portuguesa de Desportos.

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