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Tokyo 1964, Tokyo 2021 Por Fábio Altman As memórias olímpicas de uma família

De Eder Jofre ao escritor Yukio Mishima: o boxe olímpico como nobre arte

Episódio 7

Por Fábio Altman Atualizado em 8 ago 2021, 10h32 - Publicado em 8 ago 2021, 07h00

Este blog, que chega a seu último capítulo, nasceu de um par de correspondências recebidas em Tóquio por meu avô, Waldemar Zumbano, o Neno, treinador da equipe brasileira de boxe na Olimpíada de 1964. As cartas foram enviadas pela família, de São Paulo. Revelam os humores, o cotidiano e a política daquele tempo no Japão e no Brasil – e iluminam as transformações do mundo em mais de cinco décadas.  

A vida diária do Neno se resumia a boxe e política – a política que quase o impediu de embarcar para Tóquio, em 1964, como se descobriu no primeiro episódio desta série olímpica. Ele e seus irmãos, à exceção de um, que enveredou para a metalurgia, ajudaram a construir o pugilismo no Brasil. A irmã Olga foi campeã de luta livre – percorria o país numa trupe circense. Outra irmã, a Angelina, se casou com Aristides “Kid” Jofre. Um dos filhos do casal foi batizado com parte do codinome que o Neno usava nos anos 1930, em fuga da polícia política de Getúlio Vargas, desafiando quem quer que fosse pelo interior de São Paulo: Frank Eder. O menino da Casa Verde paulistana, Eder, viria a ser um dos mais completos pugilistas de todos os tempos, em qualquer categoria. Como o boxe era oxigênio familiar, evidentemente Eder não poderia estar ausente daquelas duas cartas de 1964. Ele era, então, campeão mundial dos galos – sua fama rivalizava com a de Pelé.

O clã Zumbano-Jofre: responsáveis pelo aprimoramento do pugilismo no Brasil
O clã Zumbano-Jofre: responsáveis pelo aprimoramento do pugilismo no Brasil ./Arquivo pessoal

De Raquel, na carta de 13 de outubro de 1964: “As coisas aqui não poderiam correr melhor. Domingo estivemos na Casa Verde, visitando toda a família. Estão todos ótimos. O Nêgo levou um tombo no futebol do Paiol e está com água no joelho. Mais uns dias de repouso e já estará bem. O Ricardo se desculpou por não ter ido ao aeroporto porque a Ione tinha prova e ele ficou tomando a lição até a última hora. A vovó está ‘daqui’ com o cabelo arrumado e tudo. Todos mandam abraços e beijos. O Eder e a família estão a essas alturas nos EEUU. Se você passar por lá, procure-o e se precisar de dinheiro peça emprestado. A luta vai ser em San Antonio, Texas, a 3 horas de avião de Los Angeles”.

O Japão, coincidentemente, faria parte da vida de Eder Jofre. Foi lá, em novembro de 1962, em Tóquio, que ele defendeu pela primeira vez o título mundial da Associação Mundial de Boxe, contra Katsutoshi Aoki. Venceu por nocaute. Mas foi lá, também, que Eder perdeu as duas únicas lutas de sua carreira, contra Fighting Harada, em 1965 e 1966. No primeiro dos combates, o japonês lhe tirou o cinturão dourado, por pontos. E faço aqui uma interrupção olímpica para uma breve história que revela a dimensão de Eder no Oriente. Em 2010, VEJA preparava uma edição especial em torno dos 50 anos de Brasília, e uma das ideias era tentar um texto exclusivo de um arquiteto de renome internacional. Um nome se impôs: Tadao Ando. Parecia impossível até que, vasculhando o perfil dele, soube que fora lutador de boxe na juventude – e que subira no ringue contra Harada, o algoz de Eder. Com a ajuda de um tradutor, Jefferson Teixeira, o mesmo que verteu para o português o trabalho de Oe publicado em uma das postagens desta série, escrevi para o escritório de Ando falando de Eder, do meu parentesco com o campeão, de Harada, de boxe… Em menos de uma hora recebi uma resposta entusiasmada: “Ando escreverá o artigo, claro. Qual o tamanho?”. Era o boxe, a nobre arte, erguendo pontes.

Eder Jofre lutando contra Harada no Nippon Budokan em maio de 1966
Jofre x Harada: as lutas de 1965 e 1966 até hoje são lembradas no Japão Sankei Archive/Getty Images

Poucas modalidades, ressalve-se, são tão afeitas à literatura, às narrativas esportivas, ao drama humano. O Neno sempre soube disso, e ouvi-lo contar histórias do pugilismo era uma maravilha. Em um depoimento para a Folha de S.Paulo, o poeta Paulo Bomfim (1926-2019) lembrou do seguinte: “Um dia estava no Instituto Jaguaribe, no ringue de boxe. Vejo chegar um homem muito míope, ele tira os óculos com cuidado. Era pequeno, tinha cara de poeta, nenhuma musculatura. Sobe no ringue e me convida para fazer luvas. Tentei, tentei, e nada de acertar um soco nele. Cansei, parei e perguntei: ‘Quem é você?’. E ele: ‘Waldemar Zumbano’. Ficamos amigos pelo resto da vida. Ele era comunista, como aliás eram quase todos os pugilistas da cidade”. Sylvio de Magalhães Padilha, o presidente do COB que fez o Neno embarcar para o Japão, tinha conhecimento dessa escolha ideológica, e a respeitava.

Vale a pena ler, portanto, como retrato da amplidão cultural do boxe, um texto de Yukio Mishima escrito enquanto acompanhava lutas de boxe na Olimpíada de 1964. Chama-se, não por acaso, “Assistindo às lutas de boxe”. É de 12 de outubro daquele ano, publicado no Asahi Shimbun, e convém segui-lo com os olhos daquele tempo. Serve de encerramento desta série olímpica, ao enxergar muito além de um mero evento esportivo, como nas duas cartas que resistiram ao tempo, guardadas pelo Neno. A tradução é de Jefferson Teixeira.

“Comparado à cerimônia de abertura grandiosa de ontem, o primeiro dia hoje começou bem descontraído, com uma cerimônia de juramento simples mesmo no caso do boxe. Em vez disso, sinto que finalmente a máquina gigantesca chamada Olimpíada se pôs a funcionar emitindo sons barulhentos e começando a registrar vitórias e derrotas de forma cruel, burocrática e assustadoramente imparcial. E percebe-se que o espaço branco de 20 pés quadrados do novo ringue instalado no centro do Ice Palace em Korakuen é atualmente o mais importante, histórico e brilhante espaço de boxe amador em todo o mundo entre os incontáveis ringues de boxe existentes. Mesmo com os juízes de cada país enfileirados ao lado do ringue de rostos franzidos e inexpressivos.

Yukio Mishima: “Não há logicamente nas competições de boxe das Olimpíadas nem um pouco do aspecto sombrio a que me acostumei a ver no boxe profissional-- ----
Waldemar Zumbano, o Neno, no tempo de pugilista: mais de 200 lutas ./Arquivo pessoal

Pele morena, pernas ágeis

Hoje foi a fase eliminatória, mas mesmo assim o destino dos respectivos atletas na Olimpíada vai sendo separado nas lutas de nove minutos e três rounds. Provavelmente esses nove minutos transformarão também a vida de cada um deles doravante. Como acontece em todas as áreas, vários imprevistos e o acaso estão atuando nas vitórias e nas derrotas, havendo nos bastidores da Olimpíada países e povos, com seus bosques, lagos, mares, luz solar, montanhas, flores, cidades, tudo enfim, acompanhando por detrás dos atletas os resultados com a respiração suspensa.

Foi possível sentir fortemente as maneiras e costumes interessantes desses países apenas assistindo a algumas partidas logo na abertura dos Jogos. Por exemplo, atletas de pele morena parecem em geral ter nascido para praticar boxe, devido à flexibilidade física, força na parte inferior do corpo e extraordinário trabalho de pernas. A elegância selvagem é um dos pontos fortes do boxe, mas ser apenas selvagem ou apenas elegante não implica se tornar necessariamente um bom atleta. Pude sentir algo faltando nesse esporte para os atletas de pele branca. Há necessidade nesse esporte de algo semelhante a uma densa floresta. Falta a patada de uma pantera.

Não há logicamente nas competições de boxe das Olimpíadas nem um pouco do aspecto sombrio a que me acostumei a ver no boxe profissional, bastando um leve ferimento para o árbitro acabar interrompendo a luta. Mesmo nas lutas entre homens brancos e negros, não é possível sentir nenhum tipo de brutal e pungente discriminação racial, mas mesmo assim o mais adequado ao boxe é, na minha opinião, um corpo moreno. Em particular, suas pernas extraordinariamente ágeis.

Os vencedores oram aos deuses

O interessante nas maneiras e costumes de um país pôde ser visto quando Arnulfo Torrevillas, atleta das Filipinas, um país católico, se ajoelhou imediatamente no canto do ringue após nocautear seu oponente, fazendo o sinal da cruz e orando a Deus em agradecimento. Ele abraçou o atleta finlandês que derrubara e o levou de volta até o canto dele no ringue. Já Abel Almaraz, o atleta argentino (na verdade, um boxeador extraordinário, habilidoso tanto nos ataques quanto nas defesas, com equilíbrio preciso na troca das pernas direita e esquerda), ao mesmo tempo que subia ao ringue sem tirar seu robe agitava as mãos em gestos exacerbados, num cumprimento chamativo próprio dos boxeadores profissionais. Chris Rafter, seu oponente irlandês, não se limitou a um aperto de mão após ser derrotado, demonstrando seu carinho com um tapinha brincalhão na cabeça de Almaraz, de estatura inferior à dele.

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Por trás dos atletas…

As maneiras e os costumes dos países aparecem também com frequência na torcida dos espectadores de cada nação. Os gritos de encorajamento dos latinos são todos efusivos e exagerados, e até os operadores de câmera, no caso da Argentina, gritam várias coisas para o atleta que retorna para o canto do ringue ao final da luta (apesar de o resultado ainda não estar definido) e o mandam fazer pose para tirar fotos.

Como os atletas japoneses custam a aparecer, tudo isso por trás dos atletas de cada país é muito interessante para mim, que sou um espectador objetivo durante todo o tempo. Se um atleta da Coreia aparecer, eu sentirei como se entrasse em cena, na forma de um atleta, a esperança da vitória dos pensamentos não satisfeitos daquela juventude de um país vivendo sob circunstâncias políticas complexas. Da óptica de outro país, esta é uma visão geral inevitável, com o caráter apolítico das Olimpíadas constituindo simplesmente a purificação dos ideais políticos, sendo impossível expurgar a política do coração humano.

Vitórias e derrotas revigorantes

A primeira disputa de hoje, decidida ontem no grupamento por sorteio, foi a luta entre o atleta Chung Shin-cho, da Coreia, e o atleta Hosni Farag, da República Árabe Unida. Quando os corpos amarelo e moreno de pequena compleição física da classe de peso-galo apareceram no ringue, eu praticamente não pude sentir a tensão comum no início de uma luta de boxe. Escolhidos para a primeira luta por sorteio mecânico, os dois atletas pareciam bastante relaxados, pelo menos enquanto esperavam, talvez por terem escapado dos maiores sofrimentos nervosos para atletas esportivos.

‘Iniciamos agora o primeiro dia dos Jogos Olímpicos de Tóquio.’

Após esse anúncio, na luta entre eles que se seguiu, a República Árabe Unida frequentemente escorregou e a Coreia venceu por decisão dos juízes. Enquanto esperavam a decisão, com o árbitro entre eles, a figura dos dois atletas de pé um diante do outro foi revigorante aos olhos de alguém acostumado, como eu, ao boxe profissional, e isso me fez sentir bem.

Assim, o primeiro resultado do primeiro dia foi definido, mas juntamente com o semblante humilde do vitorioso atleta coreano, e pensando no sentimento do atleta da República Árabe Unida senti certa inveja ao lembrar da última estrofe da Canção do Soldado, de Charles Vildrac:

Desejaria ter sido

O primeiro soldado a cair

No primeiro dia da guerra’.”    

Waldemar Zumbano, o Neno, estaria sorrindo – discreta e genuinamente, a seu feitio – com as medalhas de ouro de Hebert Conceição, de prata de Beatriz Ferreira e de bronze de Abner Teixeira. O boxe chegou lá.

A Olimpíada de Tóquio, mal ou bem, apesar de tudo, apesar do vírus, vai chegando ao fim neste domingo com histórias para contar, não mais em cartas, mas em e-mails, mensagens por WhatsApp, nas redes sociais e videoconferências que atravessam o mundo. Talvez por meio de emojis, e não pictogramas. Se deu certo, se sobreviveu à pandemia, só o tempo dirá. Se não deu, sempre teremos Paris. E sempre haverá uma filha iniciando a correspondência com “Querido papai…”. Até Paris, em 2024.

O envelope de uma das cartas recebidas em Tóquio: o mundo do consumo mudava aceleradamente
O envelope de uma das cartas recebidas em Tóquio: o mundo do consumo mudava aceleradamente ./Arquivo pessoal

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