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Nova Temporada Por Fernanda Furquim Este é um espaço dedicado às séries e minisséries produzidas para a televisão. Traz informações, comentários e curiosidades sobre produções de todas as épocas.

EUA: Série completa de ‘Mary Hartman, Mary Hartman’ sai em DVD

Entre 1976 e 1977, Norman Lear, então um dos Midas da TV americana, produziu a série Mary Hartman, Mary Hartman, que teve um total de duas temporadas e 325 episódios. Até então, apenas 25 episódios tinham sido disponibilizados em DVD. Mas este mês a Shout Factory lança nos EUA um box com a série completa, para […]

Por Fernanda Furquim Atualizado em 31 jul 2020, 04h44 - Publicado em 28 dez 2013, 12h25
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Elenco de ‘Mary Hartman, Mary Hartman’ (Fotos: Filmways Production/Arquivo)

Entre 1976 e 1977, Norman Lear, então um dos Midas da TV americana, produziu a série Mary Hartman, Mary Hartman, que teve um total de duas temporadas e 325 episódios. Até então, apenas 25 episódios tinham sido disponibilizados em DVD. Mas este mês a Shout Factory lança nos EUA um box com a série completa, para a alegria dos colecionadores.

Muito antes de Desperate Housewives, a série Mary Hartman, Mary Hartman já fazia uma sátira às novelas americanas e ao estilo de vida das donas de casa. Na verdade, a série não é bem uma comédia, ela está mais para uma dramédia. Ela nasceu no período do escândalo de Watergate, o qual é tratado historicamente como o momento em que a América acordou. Com um olhar irônico, por vezes cínico, a série mostra como a televisão (com suas novelas e comerciais) e os meios de comunicação em geral vinham, até então, deturpando e manipulando a forma como o telespectador enxergava o mundo. Justamente por isto, Mary Hartman, Mary Hartman só conseguiu ser melhor compreendida pelo público que era capaz de perceber esta manipulação.

A série foi muito bem recebida pela crítica e pela mídia da época, aparecendo em capas de revistas como a Rolling Stone, TV Guide, Newsweek, People e New York Times, entre outras. Com indicações ao Emmy, a série foi cancelada quando sua protagonista, a atriz Louise Lasser (a segunda esposa de Woody Allen), deixou o elenco por não aguentar a pressão do sucesso. Tentando manter a produção, Lear chegou a criar uma spinoff, com o título de Forever Fernwood, que retratava a vida dos personagens coadjuvantes de Mary Hartman, Mary Hartman. Mas esta produção durou apenas uma temporada, com 130 episódios.

DVDMHMHComo tudo que desafia a mentalidade predominante, Mary Hartman, Mary Hartman teve dificuldades para ser aceita. O sucesso de Lear com Tudo em Família, Maude e The Jeffersons não lhe garantiu a aprovação de seu novo projeto, o qual foi oferecido a todos os grandes canais.

Para os executivos da época, a série representava um perigo pois expunha em termos claros diversas questões polêmicas relacionadas ao casamento, à sociedade e aos meios de comunicação. O curioso é que a série não mostrava nada que já não tivesse sido abordado pelas novelas diurnas, que faziam tanto sucesso com o público, em especial as donas de casa. A diferença é que, nas novelas, eram utilizadas metáforas ou termos que poderiam insinuar algo. Em Mary Hartman, Mary Hartman, tudo era dito às claras, para que não houvesse dúvidas.

Outro problema que levava os grandes canais a recusarem a série era o fato de que Lear desejava exibi-la diariamente, como uma novela. Algo que não foi aceito por eles, que desejavam manter a exibição de séries com um episódio por semana. Além disso, ela não trazia as risadas de fundo e, para os executivos da época, uma sitcom sem o som das risadas não poderia dar certo.

Lear não desistiu do projeto. Decidido a oferecer Mary Hartman, Mary Hartman para os canais regionais, ele bancou sozinho a produção dos dois primeiros episódios, que serviram de piloto. Os canais compraram a série, que foi exibida em horário nobre, sendo que várias regiões a programaram para depois das 23h por temer que os temas abordados pudessem ser muito pesados para um público mais jovem.

Inspirada em uma matéria da revista Times, sobre como as donas de casa eram o segmento que mais assistia televisão, a série foi criada por Lear, Gail Parent e Ann Marcus. A história gira em torno de Mary Hartman (Lasser), uma simplória dona de casa que adora novelas e experimenta todos os produtos anunciados pelos patrocinadores. Morando em  Fernwood, Ohio, Mary é casada com Tom (Greg Mullavey), um homem impotente que trabalha em uma montadora de automóveis. O casal tem uma filha pré-adolescente chamada Heather (Claudia Lamb), uma garota problemática.

Mary é filha de Martha (Dody Goodman), uma mulher que conversa com as plantas, e George (Philip Bruns/Tab  Hunter), que trabalha com Tom na montadora. Mary também tem uma irmã chamada Cathy (Debralee Scott), que só pensa em homens, e um avô (Viktor Kilian), que gosta de expor seu pênis em público.

A melhor amiga de Mary é Loretta Haggers (Mary Kay Place), uma cantora country casada com Charlie (Graham Jarvis), um homem muito mais velho que ela que trabalha com Tom e George.

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Na cidade também vivem Merle Jeeter (Dabney Coleman), o prefeito mal-intencionado, pai de Jimmy Joe Jeeter (Sparky Marcus), um pastor evangélico de oito anos que apresentava seus sermões em um programa de TV; Dorelda Doremus (Doris Roberts), uma curandeira; Garth, um homem que bate na esposa Pat (Susan Browning); e Barth, apresentador de um talk show local. Os irmãos gêmeos Garth e Barth eram interpretados por Martin Mull. Mary Hartman, Mary Hartman também apresentou um dos primeiros casais gays das séries de TV americana. Fingindo ser irmãos, Ed (Laurence Haddon) e Howard McCullough (Beeson Carroll) viviam juntos e sonhavam com o dia em que poderiam ser casar.

Mary e seu marido Tom

Mary e seu marido Tom

Ao final da primeira temporada, Mary é convidada a participar de um debate em um talk show de alcance nacional. Durante o programa, ela é interrogada por uma feminista, um defensor dos direitos dos consumidores e por um crítico dos meios de comunicação. Eles querem saber se Mary se sente uma mulher realizada com o estilo de vida que ela adotou.

Segundo Lear, a cena durou onze minutos e foi gravada em um único take. Nela, vemos Mary sofrer uma crise nervosa, a qual a leva a ser internada em uma clínica onde, na segunda temporada, conhece Wanda Rittenhouse (Marian Mercer), viúva do comissário que mais tarde se casa com o prefeito Jeeter enquanto mantém uma relação bissexual com a empregada Lila (Marjorie Battles).

Para Mary, a crise nervosa representa o começo da mudança. Simbolicamente, ela retrata Watergate e a forma como o escândalo em torno de Nixon levou os EUA a acordar do sonho americano. A partir desta crise, Mary começa a reavaliar sua vida, seus valores e suas opiniões. Quando Lasser decidiu deixar a série, Lear começou a preparar o terreno para sua spinoff. Assim, no final da segunda temporada, Mary abandona o marido e a filha e foge com o sargento Dennis Foley (Bruce Solomon).

O sucesso de Mary Hartman, Mary Hartman levou a rede ABC a estrear em 1977 a série Soap, também uma sátira às novelas, que utilizou todos os elementos de sitcom que o público estava mais acostumado a acompanhar, sendo a mais lembrada hoje em dia.

Apesar do grande sucesso da época, a forma como Mary Hartman, Mary Hartman abordou temas polêmicos e o fato dela não ser uma produção de um grande estúdio ou canal, a levaram a desaparecer da mídia e, consequentemente, do consciente popular. Mas ela mantém seu valor histórico, que agora poderá ser conhecido por aqueles que se interessam pela história das séries de TV americana.

Cliquem nas fotos para ampliar.

Nos vídeos, os dois primeiros episódios da série. No terceiro vídeo, a cena em que Mary sofre uma crise nervosa, no final da primeira temporada. Quem desejar ver mais, os primeiros 25 episódios estão disponíveis no YouTube.

[youtube https://www.youtube.com/watch?v=Wu2UpaekiGg&w=620&h=330%5D

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