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Nova Temporada Por Fernanda Furquim Este é um espaço dedicado às séries e minisséries produzidas para a televisão. Traz informações, comentários e curiosidades sobre produções de todas as épocas.

‘Psicose’ x ‘Bates Motel’

Lançado em 1960, Psicose teve um orçamento de cerca de oitocentos mil dólares. Ao longo dos anos, conseguiu acumular um retorno estimado em 50 milhões em 2004. Portanto, nada mais natural e até previsível que a Universal tenha, ao longo dos anos, demonstrado interesse em explorar a fama do filme ‘até o caroço’. Na década […]

Por Fernanda Furquim - Atualizado em 1 dez 2016, 16h00 - Publicado em 6 jul 2013, 18h29

Freddie Highmore

Lançado em 1960, Psicose teve um orçamento de cerca de oitocentos mil dólares. Ao longo dos anos, conseguiu acumular um retorno estimado em 50 milhões em 2004. Portanto, nada mais natural e até previsível que a Universal tenha, ao longo dos anos, demonstrado interesse em explorar a fama do filme ‘até o caroço’.

Na década de 1980 foram produzidas duas sequências, ambas estreladas por Anthony Perkins. Em 1990, Perkins voltaria ao personagem em um filme para a TV que apresentou a primeira tentativa da Universal em narrar a juventude de Norman Bates, interpretado nesta fase por Henry Thomas (o garotinho do filme E.T.). A última vez que vimos Norman Bates foi em 1998, quando Gus Van Sant se arriscou a dirigir um remake do filme de Hitchcock. O fracasso da produção levou a Universal a dar um descanso a Bates, que só reapareceu em público este ano, com a série produzida para o canal A&E.

Esta é a segunda tentativa da Universal de transformar o filme em série de TV. A primeira foi em 1987, quando um piloto foi produzido para avaliação. Também com o título de Bates Motel, a história apresentava a vida de Alex, um jovem mentalmente perturbado que, depois de matar seu padrasto, passa um período em uma instituição, onde faz amizade com Bates (aqui interpretado por Kurt Paul, dublê de Perkins nos filmes sequências). Alex herda a propriedade de Bates e, com a ajuda de dois amigos, reabre o hotel. A série nunca foi produzida, mas o piloto chegou a ser vendido a canais internacionais como telefilme.

A atual versão de Bates Motel foi anunciada em 2012. Seguindo a linha de Smallville, que conseguiu com sucesso retratar a juventude de um ícone da cultura popular, a série se propõe a mostrar ao público a relação que Norman Bates tinha com a mãe e como ele se tornou o assassino psicopata que o mundo conhece. Fazendo uso da nova moda das séries de TV (que parece ter substituído a moda dos vampiros), a Universal oferece mais um seriado sobre um assassino serial.

Quem assistiu ao filme original sabe que sua principal qualidade não está no roteiro mas na direção, que constrói lentamente o suspense da trama, a qual sofre reviravoltas que mudam o foco da história. O próprio Alfred Hitchcock dizia que a única coisa que o atraiu para a história foi a cena do chuveiro na qual a personagem, que todos pensavam ser a principal, é brutalmente assassinada, obrigando o público a acompanhar a trajetória da pessoa responsável por sua morte.

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O filme surgiu de um livro escrito por Robert Bloch, que se inspirou na história de Edward Gein. Julgado em 1957 pela morte de uma jovem (embora acredita-se que ele tenha matado pelo menos duas mulheres), Ed passou o resto da vida em uma instituição mental. Edward foi criado pela mãe, Augusta, uma mulher religiosa e dominadora que desprezava o marido e acreditava que todas as mulheres (com exceção dela) eram prostitutas. Ed cresceu à sua sombra. Sem sair da fazenda onde morava, apenas para ir à escola, ele se tornou um rapaz tímido e solitário. Quando sua mãe sofreu um derrame, Ed cuidou dela. Após a morte da mãe, ele começou a roubar corpos no cemitério. Desmembrando-os, Ed utilizava a pele para fazer máscaras e revestimento de cadeiras, ossos e crânios como enfeites, e partes do corpo como acessórios de roupa e utensílios da casa.

Anthony Perkins e Janet Leigh em ‘Psicose’

Ed se tornou referência na cultura popular. Dizem que ele serviu de inspiração para a criação de Norman Bates de Psicose, de Leatherface do filme O Massacre da Serra Elétrica, de Jame Gumb em O Silêncio dos Inocentes, e de Bloody Face da segunda temporada da série American Horror Story.

Bates Motel faz uma mistura de referências entre a ficção e a história que a inspirou. Na verdade, este é seu único trunfo, visto que a qualidade da história fica comprometida pela decisão dos produtores de não construir um suspense a longo prazo.

A série peca por solucionar rápida e facilmente (de maneira provisória ou definitiva) os problemas que são introduzidos a cada episódio. É natural que isso ocorra no filme, já que ele tem apenas 109 minutos de duração. Mas a série é um formato que permite uma construção de personagens e situações a longo prazo.

Ao invés de utilizar a primeira temporada para aprofundar as bases psicológicas dos personagens e do relacionamento entre mãe e filho, os produtores optaram por uma abordagem representativa e até caricata desta relação, dando mais atenção às situações externas que giram à sua volta, com uma reviravolta a cada um ou dois episódios. Uma pena!

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O TEXTO ABAIXO CONTÉM SPOILERS

Referências

O roteiro de Psicose é construído em torno de duas reviravoltas. A história tem início com Marion, que conduz a trama na primeira parte do filme. Sua morte leva o roteiro a sofrer a primeira reviravolta, mudando o foco da história para a mãe de Norman que, embora não seja vista, se torna o centro das atenções. O filme encerra com a segunda reviravolta, a qual muda o foco da história para o próprio Norman.

Já a série inicia tendo Norma (Vera Farmiga) como o foco da história. Ao longo da primeira temporada, Norman é visto como o coadjuvante da história, conduzida pelas decisões e comportamento da mãe. A primeira temporada encerra com uma reviravolta, a qual sugere que Norman poderá se tornar o centro das atenções.

A história de Psicose inicia com Marion e seu amante. Ao longo das primeiras cenas, o público toma conhecimento de sua história, sua atual situação e seus desejos. Na primeira oportunidade que tem, ela foge de Phoenix carregando com ela uma grande quantia em dinheiro. Valor roubado da empresa em que trabalhava há dez anos. Seu objetivo é chegar em Los Angeles. No caminho, ela se hospeda no Hotel Bates.

Na série, a história tem início quando Norman (Freddie Highmore) encontra o corpo do pai. Deixando aquela vida para trás, Norma e seu filho ‘fogem’ da cidade e se estabelecem no hotel de beira de estrada que ela comprou com o resto do dinheiro que tinha. Sonhando com uma nova vida ao lado do filho, ela não sabe que a rodovia principal será desviada, o que deixará seu hotel isolado (no filme, a rodovia já existe).

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No filme, o hotel foi construído por Norma e seu amante, que mais tarde seriam mortos por Norman. Na versão para a TV, o hotel era de propriedade de Keith Summers (W. Earl Brown, de Deadwood), que o utilizava para atividades ilegais. Depois que ele é morto, seu corpo é jogado no rio e seu carro abandonado. Mãe e filho se empenham em apagar os rastros que ele deixou na casa. Mas, inadvertidamente, Norman guarda um cinto que pertencia a Summers o qual, quando descoberto pela polícia, o incrimina. No filme, o corpo de Marion, seus pertences e seu carro são jogados em um pântano. Na vida real, as partes dos corpos que Ed utilizou como acessórios o incriminam.

Freddie e Vera Farmiga em ‘Bates Motel’

Na versão para o cinema, o desaparecimento de Marion é investigado por um detetive particular, que é morto quando se aproxima da verdade. Na série, dois policiais investigam o desaparecimento de Summers. Mais tarde, um deles é morto.

No primeiro filme sequência de Psicose, o público descobre que Norma tinha uma irmã com problemas mentais chamada Emma, que se considerava a verdadeira mãe de Norman. Na série, conhecemos Emma Decody (Olivia Cooke), uma jovem com problemas de saúde, que se apaixona por Norman.

No filme Psicose, Norman parece ser filho único. Na vida real, Ed tinha um irmão mais velho chamado Henry. Na série, ele tem um irmão mais velho chamado Dylan (Max Thieriot).

Os dois foram criados juntos mas, ao contrário de Ed que se dedicava totalmente à mãe, Henry parecia conseguir perceber o mal que Augusta causava a eles. O rapaz se envolveu com uma mulher, mãe de dois filhos, com quem ele pretendia morar.

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Preocupado com o irmão, Henry tentou fazer com que Ed percebesse o tipo de relação que ele tinha com a mãe. Henry não sobreviveu. Após um incêndio na fazenda, ele foi encontrado morto. Segundo o que foi divulgado, ele teria morrido asfixiado. Na série, Dylan apresenta a mesma preocupação que Henry tinha para com Ed.

No filme, todos os personagens agem por impulso, seja Norman (que mata e se livra dos corpos sem pensar nas consequências); seja Marion (que, além de roubar por impulso, mantém um comportamento desastroso que atrai a atenção de um policial na estrada); seja o detetive (que ingenuamente entra na casa de Norman); seja a irmã e o namorado de Marion (que decidem investigar Norman e o hotel). Tal qual no filme, a série também apresenta personagens que agem por impulso – em especial Norma – reagindo às situações conforme elas vão ocorrendo.

Pelo que se sabe, não há informações de que Ed empalhasse animais mas o fato dele utilizar partes do corpo e a pele para fazer objetos de uso pode ter servido de referência ao hobby de Norman. Na série, vemos o rapaz ser introduzido à taxidermia. No filme, ele se dedica aos pássaros, aves que representam o desejo de liberdade por serem capazes de voar para longe do ninho. Na versão para a TV, Norman inicia seu aprendizado com um cachorro (o melhor amigo do homem) que foi atropelado.

As referências não se limitam apenas ao primeiro filme. No prelúdio de Psicose, lançado em 1990, é sugerido que Norman nasceu com o instinto de assassino, ou seja, não teria sido a forma como ele foi criado pela mãe que o teria tornado um monstro. Na série, existem cenas que sugerem a mesma coisa. Norma estaria a par da natureza do filho e sua atitude protetora seria uma forma de cuidar e evitar que ele cometa crimes ou seja preso por isso.

As referências são a base da construção da primeira temporada e levando em consideração que os produtores têm quatro filmes e a vida real de Ed como fonte de inspiração, elas devem durar ainda por algum tempo. Ainda assim, alguns personagens (aparentemente sem referências) foram introduzidos nos episódios da primeira temporada e estão apenas esperando pelo momento em que começarão a fazer parte ativa da história.

Entre eles, Bradley (Nicola Pietz), a garota mais popular da escola, com quem Norman se envolve depois que o pai dela é morto; e o Xerife Alex Romero (Nestor Carbonell), que desconfia do comportamento de Norma (tal qual o policial no filme Psicose), e parece estar a par das atividades criminosas que ocorrem na cidade (outra situação que foi introduzida na versão para a TV).

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A série já foi renovada para sua segunda temporada, que contará com a produção de mais dez episódios, com previsão de estreia para 2014. No Brasil, Bates Motel estreou na última quinta-feira, dia 4 de julho, pelo canal Universal.

Cliquem nas fotos para ampliar.

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