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Vítimas de João de Deus narram detalhes de abusos em produção do Globoplay

Série documental 'Em Nome de Deus' reúne sete mulheres que, pela 1ª vez, aceitaram mostrar os rostos para expor os horrores que sofreram nas mãos do médium

Por Eduardo F. Filho Atualizado em 23 jun 2020, 12h23 - Publicado em 23 jun 2020, 10h04

“Eu sou o doutor Augusto de Almeida”, diz o médium João de Deus com voz grave. “Salve, doutor Augusto de Almeida”, respondem os trabalhadores da Casa Dom Inácio de Loyola, em Abadiânia, interior de Goiás. Após a introdução, o médium se vira para um paciente e diz que vai curá-lo. Mergulha uma tesoura recoberta de algodão em um líquido incolor e, sem delongas, enfia a lâmina em uma das narinas do homem, que mal se aguenta de dor. Ele gira o objeto dentro do nariz e abre a tesoura. Logo em seguida, abaixa a cabeça do paciente e deixa o sangue escorrer entre seus dedos e o mostra para a câmera, como se fosse um troféu. Em outro momento, corta as costas de uma mulher, passa o bisturi sob o olho de um homem e costura pontos no abdômen de outro paciente. “Pode carregar que ele está operado”, afirma para a câmera. Era assim que João Teixeira de Faria, ou João de Deus, como ficou mundialmente conhecido, “curava” as pessoas – ou melhor, se exibia fazendo isso na frente das câmeras.

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As cenas impressionantes estão no novo documentário original da Globoplay, Em Nome de Deus, que vai ao ar na noite desta terça-feira, 23, na Globo, na sequência da minissérie Aruanas. Depois da exibição, todos os seis episódios estarão disponíveis na plataforma de streaming da emissora. Com criação de Pedro Bial, a série mostra os bastidores de um dos maiores escândalos de abuso sexual do país. Mais que isso, contudo, expõe detalhes sobre a vida e a atividade do médium antes da fatídica noite de 7 de dezembro de 2018, quando Bial entrevistou a holandesa Zahira Mous. Tímida e camuflada, mas extremamente corajosa, a ex-paciente revelou ter sofrido abuso do famoso médium – e acabou abrindo espaço para que centenas de mulheres viessem a público relatar que também sofreram violência sexual nas mãos dele.

A produção é conduzida pelo relato de vítimas de João de Deus. Sete delas, de diferentes regiões do Brasil, concordaram em mostrar o rosto pela primeira vez e protagonizam as cenas mais impactantes do documentário. Sem nunca terem se encontrado, elas se unem em uma roda viva para conversar e ajudar uma às outras a superar os traumas vividos dentro da casa Dom Inácio. “Foi um trabalho de meses para convencer essas mulheres a falar na frente das câmeras. Mas todas aceitaram participar, porque queriam conhecer a Zahira. Elas tinham essa vontade de conhecer a mulher que fez tudo isso se tornar possível. Foi um momento muito bonito de presenciar”, revela Camila Appel, repórter que assina o roteiro ao lado do também diretor Ricardo Calil.

Cena da roda viva das vitimas de João de Deus na produção original da Globoplay
Cena da roda viva das vitimas de João de Deus na produção original da Globoplay Globo/ Maurício Fidalgo/TV Globo

A roda de conversa, tida como a parte mais importante da produção pela equipe de documentaristas, foi gravada por cerca de oito horas, em um período de dois dias. Para a gravação do encontro ser a mais verdadeira possível, as mulheres foram colocadas em hotéis e camarins diferentes. Assim, o primeiro encontro entre elas aconteceria somente na frente das câmeras. No estúdio, para elas se sentirem mais à vontade, a maioria das câmeras foi operada por mulheres.

“Foi muito interessante ver essa mudança corporal, principalmente na Zahira. Quando a entrevistamos pela primeira vez, ela estava com roupas pesadas, escuras, cachecol, toda fechada. E quando gravamos a roda viva, ela estava com uma roupa leve, um vestido esvoaçante. Ela estava livre, havia exorcizado o trauma”, diz Bial. “Era como se fosse um casulo. No dia da gravação, ela se transformou em uma linda borboleta”, completa o diretor Ricardo Calil.

  • Em paralelo à produção do Globoplay, a Netflix também está produzindo um documentário sobre a vida do médium. Ele, que tem uma fortuna de 100 milhões de reais e está com os bens bloqueados, reclamava que não tinha dinheiro nem para pagar seus advogados. Mas teve uma parte de seu problema solucionado: a empresa Grifa Filmes, que produz o documentário, fechou no final de abril um termo de compromisso com João de Deus e a Casa Dom Inácio de Loyola. Pelo contrato, João de Deus recebeu 70 mil reais adiantados da produtora que fará o documentário para a Netflix em troca de seus arquivos pessoais.  São fotos, documentos e gravações mostrando as curas. A assessoria do Globoplay afirma que, ao contrário da Netflix, “nem o Globoplay nem a produção do documentário pagou nada a João de Deus ou a qualquer pessoa ligada a ele”.

    Condenado a mais de 40 anos de prisão por estuprar cinco mulheres em Abadiânia, João de Deus está em prisão domiciliar desde março, em razão da pandemia do novo coronavírus. O médium alegou que, aos 68 anos, faz parte do grupo de risco e sofre de doenças graves – precisaria, segundo ele, de um lugar menos insalubre para cumprir a pena.

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