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‘Round 6’ torna crise econômica em jogo mortal — e vira hit na Netflix

Ao combinar críticas sociais e alta dose de violência, série é a primeira da Coreia do Sul a assumir a liderança entre os mais vistos nos Estados Unidos

Por Amanda Capuano Atualizado em 28 set 2021, 16h41 - Publicado em 28 set 2021, 10h31

Em um mundo capitalista, dinheiro é sinônimo de sobrevivência, mas até que ponto ele nos separa da nossa humanidade? Em Round 6 — série sul-coreana que encabeça a lista de mais populares da Netflix no Brasil e no mundo — a questão é levada às últimas consequências quando um grupo de pobres endividados é convidado para um jogo misterioso com apenas três regras definidas: os jogadores não podem desistir, quem se recusar a jogar será eliminado e a maioria decide quando encerrar o jogo. O que parecia ser uma brincadeira inocente inspirada em jogos infantis, e fonte de dinheiro fácil, revela-se uma batalha entre matar ou morrer — quem quer que seja “eliminado” ganha um tiro na testa, sem chance de vida extra como nos videogames. Os que sobrevivem, avançam para a próxima fase, onde uma nova brincadeira mortal define o futuro.

Novo expoente do afiado entretenimento sul-coreano, consolidado pelo oscarizado Parasita de Bong Joon-ho, a série é a primeira do país a atingir o topo do ranking americano de mais vistos da plataforma. Longe de ser uma obra-prima como Parasita, Round 6, contudo, bebe da mesma fonte do filme para alfinetar as desigualdades do tigre asiático. Logo no primeiro episódio, depois do banho de sangue em um jogo de “estátua” onde qualquer movimento é morte certa, a terceira regra é reivindicada, dando aos participantes a chance de votar pelo encerramento do jogo. O que parecia uma decisão fácil ganha contornos sombrios quando os organizadores — todos mascarados — revelam o prêmio em dinheiro: 45,6 bilhões de won, cerca de 208,2 milhões de reais em cotação atual. “Lá fora eu vou morrer de qualquer jeito, pelo menos aqui eu tenho uma chance”, argumenta uma das participantes, angariando apoiadores cuja vida na reluzente Coreia do Sul é ruim o suficiente para que a ideia de matar e morrer por uma chance remota de sucesso pareça plenamente aceitável.

“Eu queria escrever uma história que fosse uma alegoria ou fábula sobre a sociedade capitalista moderna, que retratasse algo como a competição extrema da vida, mas com o tipo de personagem que todos conhecemos na vida real ”, disse o diretor Hwang Dong-hyuk em entrevista à Variety. Unidos pela dificuldade financeira e pelo desespero de cuidar de familiares ou sanar dívidas perigosas — além da cota de vigaristas — os personagens são de fato comuns, facilmente encontrados também nas ruas brasileiras. Seong Gi-hun (Jung-jae Lee), o protagonista, perdeu o emprego recentemente e vive com a mãe idosa, enquanto gasta o pouco que tem tentando a sorte nos jogos. Quando a ex-esposa anuncia que irá para os Estados Unidos com a filha, ele se desespera na busca de dinheiro para lutar pela guarda da criança, e acaba caindo nas garras do jogo, que é fonte de diversão para uma elite sádica e entediada.

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O protagonista Seong Gi-hun, interpretado pelo ator Jung-jae Lee Reprodução/Netflix

Fruto das dificuldades financeiras do próprio diretor, que escreveu a história enquanto lia quadrinhos como o sangrento Battle Royale em cafés sul-coreanos, a trama bebe de elementos típicos de distopias como Jogos Vorazes, mas não há golpe de estado ou saltos temporais na história, que se passa na Coreia do Sul dos dias de hoje, com desigualdades bem reais e fortemente retratadas no cinema e na literatura do país. O sucesso da violência explícita com o conflito manjado entre sobrevivência e humanidade não apenas alçou a série ao topo dos mais assistidos, como também reviveu produções similares, como Alice In Borderland, série japonesa lançada em 2020 que retrata um jogo mortal em uma Tóquio pós-apocalíptica, e que voltou a ficar em alta na plataforma ao ser recomendada aos expectadores de Round 6.

Na onda do sucesso, a Netflix ainda anunciou neste final de semana, durante o Tudum — evento global de fãs da plataforma — que já tem mais 10 produções sul-coreanas no forno até o primeiro semestre de 2022, incluindo séries e reality shows. O boom de conteúdo é reflexo dos 500 milhões de dólares investidos pela plataforma no país em 2021, segundo divulgado pela própria empresa no início do ano. “O público de todo o mundo está se apaixonando pelas histórias, artistas e cultura coreana”, disse Kim Minyoung, vice-presidente de conteúdo da Netflix na Ásia e Oceania — a julgar pelo sucesso de Round 6, ele acertou em cheio.

  • Confira o trailer:

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