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Tela Plana Por Blog Críticas e análises sobre o universo da televisão e das plataformas de streaming

‘Rosa e Momo’, o adorável filme que tirou Sophia Loren da aposentadoria

Após dez anos, atriz italiana retorna ao set para dar vida a sobrevivente do Holocausto em produção da Netflix

Por Raquel Carneiro Atualizado em 24 nov 2020, 14h24 - Publicado em 24 nov 2020, 14h00

Lenda do cinema italiano, Sophia Loren era uma adolescente quando encantou cineastas renomados, caso do incomparável Vittorio De Sica, e deu início à sua prolífica carreira, passando por clássicos como Matrimônio à Italiana (1964) e Duas Mulheres (1960), que lhe rendeu o Oscar de melhor atriz — o primeiro de atuação para um artista de língua não-inglesa. O rosto de traços marcantes e corpo voluptuoso somados ao talento para o drama e perfeccionismo autodeclarado fizeram com que Sophia cruzasse fronteiras, caindo no gosto de Hollywood e nos cinemas ao redor do globo. Isso até os anos 80, quando a musa optou por desacelerar, se tornando figura rara nas telas, com poucos trabalhos, papéis menores, até longos sumiços.

Não à toa, a presença da atriz em Rosa e Momo, que estreou recentemente na Netflix, chamou a atenção dos que há mais de uma década não a viam em um filme. Aos 86 anos, Sophia interpreta Rosa, uma ex-prostituta e sobrevivente do Holocausto, que se aposentou das ruas e cuida de crianças de colegas de profissão. De forma inesperada, cai sob seus cuidados o arredio Momo (Ibrahima Gueye), um imigrante senegalês órfão e aparentemente indomável. A relação entre a criança e a idosa se transforma paulatinamente em respeito até chegar ao afeto que ambos há tempos não recebiam.

O filme que está entre os mais populares da Netflix no Brasil é dirigido por Edoardo Ponti, filho mais novo de Sophia. A presença do cineasta e a trama envolta em uma mensagem sobre tolerância, foi a combinação que motivou a atriz a voltar ao set. Segundo Sophia, em entrevista ao The New York Times, sua aposentadoria parcial das telas começou quando percebeu que mal via os filhos – na época, o mais velho, Carlo Jr, tinha 12 anos, e Edoardo, 7, ambos frutos do relacionamento com o produtor Carlo Ponti, com quem Sophia ficou por 50 anos, até a morte dele, em 2007. “Eu me perguntei: ‘o que você quer da vida, Sophia?’. E eu respondi, ‘uma boa família’, a qual eu já tinha. Eu quis ter dois filhos, mas nunca os via. Decidi desacelerar um pouco. Mas não foi o que aconteceu: simplesmente não quis mais trabalhar”, conta ela. A musa italiana ainda se deu um conselho. “Eu disse a mim mesma: ‘Sophia, é melhor parar de atuar agora, e retomar mais tarde’. Foi bom, pois pude ver meus filhos crescerem, se casarem e terem seus próprios filhos”.

A conexão com Edoardo foi então o primeiro chamariz para aceitar o papel de Madame Rosa. O segundo foi justamente a complexidade da protagonista. “Ela me desafiou. Não só por sua carga emocional, mas também pela mensagem de tolerância, amor e inclusão que o roteiro expressa”.

Além da relação entre os dois inusitados protagonistas, o filme pincela de forma sutil, mas marcante, temas recorrentes não só da atualidade da Itália, mas da história da Europa. Rosa, uma judia, é amiga de um comerciante muçulmano, que emprega Momo e o ajuda a se reconectar com sua religião de origem. Na casa de Rosa, residência que evidencia o lado B da cidade turística Bari, onde a trama se passa, Momo precisa aprender a dividir espaço com outras crianças, uma delas filha de uma mulher trans, vivida pela atriz e roteirista espanhola Abril Zamora, conhecida pela série Vis a Vis. Sotaques, raças e crenças se misturam no elenco, que perpassa no roteiro por dilemas de refugiados e a importância de uma rede de apoio. De fato uma mistura interessante, que nem Sophia Loren, em sua confortável aposentadoria, conseguiu recusar.

 

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