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‘Reality Z’: Os clichês do Brasil resumidos em um apocalipse zumbi

Nova série nacional da Netflix abusa da previsibilidade enquanto enche o Rio de Janeiro de mortos-vivos

Por Eduardo F. Filho - Atualizado em 11 jun 2020, 15h41 - Publicado em 11 jun 2020, 15h32

O Rio de Janeiro está em chamas. Milhares de pessoas nas ruas participam de manifestações contra a corrupção. A Assembleia Legislativa investiga um deputado corrupto enquanto o mesmo evoca ao microfone que é inocente. Do outro lado da cidade, um famoso reality show ignora os dilemas do país e investe na missão de manter a audiência do programa, que desfila participantes de corpos sarados e pouco conteúdo. Logo, nenhuma novidade na vida do brasileiro. Até que os clichês do país são interrompidos por um outro tipo de terror: um apocalipse zumbi.

Rapidamente, a cidade maravilhosa se transforma num cenário ensanguentado, com mortos-vivos comendo tripas e mordendo pescoços por aí — inclusive de políticos aglomerados no plenário. Na TV, diz a jornalista, ninguém menos que Leda Nagle: “Não existe uma explicação oficial para o que está acontecendo”. Assim começa Reality Z, nova série de terror nacional da Netflix, que chegou à plataforma nesta quarta-feira, 10. Ao longo de dez episódios, o espectador continuará com a mesma dúvida de Leda, com um constante “Oi?”, na mente, além de náuseas no estômago causadas pelas cenas mais escabrosas.

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Apesar do novo cenário acalorado do Brasil, tramas com apocalipses zumbis seguem basicamente um roteiro: os monstrengos aparecem do nada, se espalham rapidamente, e os poucos sobreviventes precisam descobrir não só como continuar vivos, mas também meios para manter a essência do que é ser um ser humano. Reality Z faz isso, sob as asas do Cristo Redentor e críticas, embora rasas, à corrupção, ao racismo e ao culto à celebridade. Taí outro clichê do subgênero: fãs juram de pés juntos que os filmes e séries de zumbi não são apenas filmes e séries de zumbi — todos trazem reflexões filosóficas e até religiosas. O que salta aos olhos em Reality Z, porém, é como o seriado bizarramente se encaixou no cenário da pandemia.

Na série da Netflix, o lugar mais seguro da cidade é o set de filmagens de Olimpo, uma espécie de Big Brother Brasil, apresentado por Divina (vivida por uma exagerada Sabrina Sato) em que os participantes, confinados há mais de dois meses na casa, não sabem de nada do que está acontecendo do lado de fora. A semelhança com a realidade é irônica. Enquanto o coronavírus se espalhava pelo mundo, edições do BBB aconteciam em diversos países. A Itália antecipou a final do programa. O Canadá cancelou a atração no meio, mandando os participantes para casa. No Brasil, o contrário: o programa ganhou alguns dias a mais pela boa audiência. Os confinados, aliás, eram vistos pelas pessoas do lado de fora como os mais seguros em plena pandemia. Convenhamos que isso diz muito sobre o brasileiro, que hoje ainda insiste em quebrar a quarentena.

Apesar de ter momentos bons de tensão e suspense, Reality Z, inspirada na minissérie britânica Dead Set, de Charlie Brooker, criador de Black Mirror, comete o erro de seguir alguns exageros do terror barato, com personagens que tomam atitudes burras, cenas óbvias e a dificuldade de dar ao espectador a chance de se apegar a alguém do elenco: fica a dica, boa parte dele morre muito rapidamente. Ops, desculpe o spoiler — se é que há algo em uma previsível série de zumbis que possa ser tratado como spoiler.

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