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Racismo é o grande vilão da Marvel em ‘Falcão e o Soldado Invernal’

Minissérie do Disney+ vai além da pancadaria de tramas de super-heróis para se aprofundar em temáticas engajadas caras à sociedade americana

Por Raquel Carneiro Atualizado em 21 abr 2021, 17h50 - Publicado em 22 abr 2021, 10h00

*O texto tem spoilers dos cinco primeiros episódios da minissérie Falcão e o Soldado Invernal.

Em uma das cenas mais emotivas de Vingadores: Ultimato, marco na virada de fase da Marvel no cinema, Capitão América (vivido por Chris Evans) despede-se de seus dois amigos, Bucky Barnes, o Soldado Invernal (Sebastian Stan), e Sam Wilson, o Falcão (Anthony Mackie). Envelhecido após uma viagem no tempo, ele conta que viveu uma boa vida no passado e entrega a Sam seu inexorável escudo com as cores da bandeira americana. Falcão se emociona, e o Capitão pergunta: “Como se sente?”. “Como se pertencesse a outra pessoa”, responde Sam, antes de aceitar o presente carregado de toneladas de peso simbólico. Começava ali uma desnecessária controvérsia, que desembocou em uma necessária discussão: o próximo Capitão América será negro?

A minissérie Falcão e o Soldado Invernal, que chega ao fim nesta sexta-feira, 23, com seu sexto episódio no Disney+, parte desse ponto e transita com maestria por temas sociais e políticos caros à sociedade americana, como o supremacismo e o racismo, além da violência intrínseca à cultura belicosa do país. Uma abordagem notável para um roteiro que ainda conseguiu manter o DNA dos filmes da Marvel, com cenas de ação carregadas de adrenalina e perseguições em alta velocidade.

No resumo da ópera, o roteiro assinado por Malcolm Spellman (da série Empire) e dirigido pela canadense Kari Skogland (The Handmaid’s Tale) mostra como os dois coadjuvantes encaram a vida sem o protagonista e líder Capitão América. Bucky faz terapia compulsória para se livrar da lavagem cerebral feita pela Hydra (organização que emula o nazismo na Marvel). Já Sam entrega o escudo do Capitão América ao governo, e volta ao lar para ajudar a irmã a aplacar as dívidas familiares. Qual não é a surpresa de ambos quando o governo dos Estados Unidos dá o escudo a John Walker, o “novo Capitão América” (interpretado por Wyatt Russell), um soldado americano condecorado na guerra do Afeganistão.

Ao contrário das costumeiras tramas de super-heróis, o vilão aqui não é tão óbvio. Walker, por exemplo, é movido por boas intenções até, ao chegar em seu limite, explodir e evidenciar a violência do treinamento recebido no exército. Os Apátridas, grupo terrorista perseguido pelos heróis, se revelam insurgentes refugiados relegados pelos governos mundiais a uma parca ajuda humanitária. Somente ao se aproximar do final, Falcão e o Soldado Invernal aponta para um vilão perigosíssimo, mas quase imperceptível: o racismo.

Bucky entende que Sam recusou o escudo por ser um homem negro. Branco e loiro, o Capitão América é um símbolo do país que ainda se vê às voltas com seu pecado original, a escravidão. O calmo Sam explode em uma mistura de sentimentos quando descobre Isaiah (Carl Lumbly), um homem negro vertido em supersoldado na II Guerra, como o Capitão América — mas, ao contrário do colega loiro que se tornou herói da nação, Isaiah passou trinta anos preso como cobaia. “Eles me apagaram. Apagaram minha história, mas fazem isso há 500 anos”, diz Isaiah. Em seguida, alerta Sam: “Nunca vão deixar um homem negro ser o Capitão América. E mesmo que deixem, nenhum negro que se respeite aceitaria ser”. Apesar de ouvir com atenção e concordar, Sam opta por mudar o rumo da história e passa a treinar com o escudo. Ao que tudo indica, no final que vai ao ar nesta sexta o ator Anthony Mackie aparecerá como uma nova versão do Capitão América.

A mudança bem-vinda reforça, de forma explícita, um antigo posicionamento da Marvel. Vale lembrar que a editora de quadrinhos criava heróis amparada pelo momento histórico. Entre eles, os X-Men. Concebidos em 1963 por Stan Lee e Jack Kirby, os mutantes relegados à margem da sociedade por serem diferentes dos demais eram uma alegoria da luta dos negros pelos direitos civis na época. Os dois líderes da ficção, o pacífico Professor Xavier e seu contrário, o tempestuoso Magneto, foram inspirados nos ativistas Martin Luther King Jr. e Malcolm X, respectivamente. Super-heróis também podem ser engajados. E sua força faz diferença.

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