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Pioneiro, ‘Um Príncipe em NY’ fez história ao retratar uma África próspera

Estrelado por Eddie Murphy, filme foi a primeira comédia com um elenco totalmente negro a se transformar num blockbuster mundial

Por Felipe Branco Cruz Atualizado em 10 mar 2021, 12h47 - Publicado em 10 mar 2021, 12h41

Em uma cena do filme Um Príncipe em Nova York 2, que chegou recentemente ao Amazon Prime Video, o príncipe Akeem (Eddie Murphy), em busca de seu filho bastardo, deixa o país africano Zamunda rumo à metrópole americana. Quando finalmente o encontra, a mãe do garoto questiona: “Você é o príncipe de Wakanda?” e Akeem responde: “Wakanda é um lugar fictício. Zamunda é um país de verdade”. A piada com o nome da nação superdesenvolvida do filme Pantera Negra (2018) guarda uma ironia: assim como Wakanda, Zamunda também é um país fictício. A diferença é que Zamunda quebrou barreiras muito antes da superprodução da Marvel, ao chegar aos cinemas três décadas antes, em 1988, na comédia Um Príncipe em Nova York.

Apesar de não existirem na vida real, Zamunda e Wakanda possuem função nobre: bolhas de prosperidade, riqueza e tecnologia, estes países admiráveis vão na contramão do frequente retrato feito do continente, visto apenas como miserável, atrasado e violento. Assim, os roteiristas não só bebem do passado da África pré-colonização e pré-diáspora, em que reis e rainhas governavam o continente, como também apontam para um futuro que coloca o africano como agente de transformação no mundo. Tal visão de uma África moderna e recuperada dos anos de exploração europeia ganhou o nome de Afrofuturismo, ideia que vem lá dos anos 60, enraizada em pensamentos do artista e filósofo americano Herman Poole Blount, conhecido como o Sun Ra. No século XXI, o conceito viajou o mundo com o empurrão de Pantera Negra e do filme musical Black is King, de Beyoncé, disponível no Disney+. Agora, ganha o reforço de Um Príncipe em Nova York 2.

Pantera Negra
Lupita Nyong’o e Chadwick Boseman em cena do filme ‘Pantera Negra’ da Marvel Marvel Studios/Reprodução

Para Murphy, de volta ao protagonismo do filme que se tornou um clássico da Sessão da Tarde no Brasil, a longevidade da produção está ligada ao seu pioneirismo de apresentar, pela primeira vez, uma comédia formada por um elenco 99% negro — exceto por Louie Anderson (que faz um assistente de cozinheiro). “Um Príncipe em Nova York é um conto de fadas moderno”, disse o ator em entrevista exclusiva a VEJA. Murphy ainda se desvincula de questões polêmicas ao apontar a universalidade da trama. “Quando nós, negros, fazemos filmes, colocamos na tela nossa história. Ou seja, injustiças sociais, escravidão — enfim, coisas realmente dramáticas. Mas esse filme não é político. É sobre fazer a coisa certa, sobre família, amor e tradição.”

Um Príncipe em Nova York 2 tem trilhado o mesmo sucesso do primeiro. Segundo pesquisa publicada pelo site The Hollywood Reporter, a continuação do longa de 1988 foi a maior estreia do ano no streaming, superando grandes blockbusters que estrearam no ano passado, como Mulher-Maravilha 1984 e Borat: Fita de Cinema Seguinte.

  • Reforçando a inversão de estereótipos, Um Príncipe em Nova York alfineta os Estados Unidos ao representar os africanos como um povo de costumes refinados, enquanto os nova-iorquinos é que vivem em um local sujo, feio e perigoso. Para arrematar, a mocinha americana se apaixona pelo príncipe e não tem dúvidas de que prefere deixar Nova York rumo à África.

    Apesar da inovação e da popularidade, Um Príncipe em Nova York sempre dividiu a crítica, o que também tem acontecido com sua sequência. Se a comédia besteirol é boa ou não, vai do gosto do cliente. Mas sua ousadia que marcou a história do cinema, isso ninguém pode contestar.

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