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Passando a boiada no ar: Record emplaca ‘Os Dez Mandamentos’ na TV Brasil

Ao adquirir novela bíblica do canal de Edir Macedo, aliado de Bolsonaro, rede pública vai contra separação entre igreja e estado, dizem especialistas

Por Raquel Carneiro, Marcelo Marthe Atualizado em 9 abr 2021, 17h42 - Publicado em 9 abr 2021, 17h37

Desde a segunda-feira, 5, a novela Os Dez Mandamentos (2015), da Record, começou a ser exibida na grade da TV Brasil. Segundo informações publicadas no Diário Oficial da União, o governo de Jair Bolsonaro gastou 3,2 milhões de reais pelos direitos do título. Enquanto é acossado pela pandemia, o Brasil assiste à possessão da emissora mantida com dinheiro público pelo espírito da rede de Edir Macedo. Talvez por ela dar traço no ibope, valeu aqui a máxima cunhada pelo ministro do meio-ambiente, Ricardo Salles: foi fácil passar essa boiada no ar.

A aquisição, feita sem licitação pelo governo de Jair Bolsonaro, assinala uma guinada na trajetória da emissora – cuja existência, por si, é um despropósito com o dinheiro público, e que o próprio Bolsonaro prometera extinguir quando ainda candidato. Já que continua a existir, a TV Brasil deveria ao menos tentar cumprir o objetivo formal de sua criação: democratizar o acesso a programas culturais e educativos, em especial para a parcela mais necessitada da população. Dentro dessa perspectiva, até dava para engolir seu investimento em atrações da TV paga, principalmente infantis. Mas diverge completamente do figurino de uma emissora pública colocar em sua grade uma telenovela exibida duas vezes na TV aberta — e que ficou por três anos disponível na Netflix.

A questão ganha contornos mais controversos quando se tem em vista a relação do presidente com seu apoiador Edir Macedo, líder da Igreja Universal do Reino de Deus e dono da Record, que produziu a trama bíblica em 2015. “O teor desse conteúdo fere a laicidade do Estado e a pluralidade religiosa. Sua exibição é uma decisão arbitrária, que demonstra um alinhamento declarado do governo atual”, diz Clarice Greco, doutora em comunicação especializada em ficção televisiva. A mesma visão é compartilhada por religiosos. “Essa aquisição, feita com dinheiro público como um patrocínio estatal para uma emissora que tem ligações com uma igreja, pode não ser ilegal, mas com certeza fere os princípios da ética”, diz o pastor e teólogo Caio Fábio.

A compra da novela foi feita pela Empresa Brasil de Comunicação (EBC), parte do Ministério das Comunicações, comandado por Fábio Faria (PSD-RN), e vai até 15 de novembro de 2022. Ao dividir o valor da aquisição pelos 242 capítulos de Os Dez Mandamentos, constata-se que cada um deles saiu por cerca de 13 000 reais para os cofres da nação. Ou seja, dinheiro do contribuinte – de você que está lendo esta reportagem – foi torrado para a enésima reexibição de Os Dez Mandamentos numa TV que deveria se ater ao interesse público e respeitar a sagrada separação entre o proselitismo religioso e o estado.

A trama adapta a história bíblica de Moisés, vivido por Guilherme Winter, o patriarca que teria libertado os hebreus da escravidão do Egito com a ajuda das dez pragas enviadas por Deus. Denilson Morales, diretor de conteúdo e programação da emissora, justificou a compra no site da rede oficial como uma “alternativa” para “incentivar a produção nacional” e “dar visibilidade a grandes obras”. A explicação é rebatida por especialistas. “A TV Brasil deveria incentivar a produção nacional realizando, ela própria, grandes produções, o que não faz há muito tempo. Também incentivaria comprando conteúdos das produtoras independentes e fazendo coproduções”, diz Gabriel Priolli, consultor em comunicação educativa e política.

Um dado torna a aquisição ainda mais contraditória – e inexplicável. A transação milionária acontece em um momento no qual o governo lamenta o prejuízo de 550 milhões de reais da estatal – um argumento que só deveria reforçar o desejo esquecido de Bolsonaro de privatizar a empresa, e não a aposta nababesca em Os Dez Mandamentos. Quem está muito grato com essa novela toda, claro, é Edir Macedo. Basta assistir ao Jornal da Record para notar.

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