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Tela Plana Por Blog Críticas e análises sobre o universo da televisão e das plataformas de streaming

Na era das fake news, William Bonner vira símbolo da verdade que incomoda

Alvo da polarização política, apresentador tem sofrido ameaças e intimidações - o que demonstra que o jornalismo profissional tira o sono dos radicais

Por Raquel Carneiro - Atualizado em 27 Maio 2020, 12h02 - Publicado em 27 Maio 2020, 11h48

William Bonner está cansado. E ele não é o único. Em entrevista ao programa Conversa com Bial, na madrugada desta quarta-feira, 27, o âncora do Jornal Nacional se mostrou — como muitos brasileiros — desanimado com os rumos que o país tem seguido, e, para além de um desgosto com a nação, evidenciou um desconforto no âmbito pessoal. “Eu ainda me assusto com o ódio que escorre das palavras”, disse sobre a animosidade nas redes sociais, que se espalhou pelas ruas e minou sua liberdade de transitar por ambientes públicos. Bonner, antes uma celebridade festejada da TV, se tornou objeto de repúdio e da gritaria dos críticos mais exaltados.

A entrevista feita via videoconferência aconteceu na mesma semana em que o apresentador revelou ter sido alvo de uma campanha de intimidação, com mensagens ameaçadoras recebidas via WhatsApp, contendo dados pessoais seus e de sua família. Ainda nesta semana, profissionais da Folha de S.Paulo, Globo e Band decidiram não enviar mais repórteres para a frente do Palácio do Alvorada, em Brasília, por falta de segurança após episódios de agressões promovidos por apoiadores de Jair Bolsonaro. Para o bem e para o mal, Bonner, que já era um símbolo do jornalismo no país, se mostrou nestes dias um representante máximo do que tem vivido a classe.

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Na conversa com Pedro Bial, ele revelou que se viu obrigado a parar de andar de avião, já que sua presença era “motivadora de tensões”. Quando seu pai, em 2016, e depois sua mãe, em 2018, ficaram doentes, o apresentador fez extensas e constantes viagens de carro do Rio de Janeiro à capital paulista para visitá-los.

Coincidentemente, e infelizmente, os pais de Bonner ficaram enfermos em anos eleitorais de combustão máxima, períodos que acentuaram a polarização política – e, com ela, o aumento da proliferação das fake news. As notícias falsas servem ao propósito de confundir e manipular, sejam baseadas em mentiras, ou ressaltando apenas um lado da verdade. Ironicamente, elas unem os dois lados da polarização, que encontram em seguidores desolados pelos dilemas do país um terreno fértil para plantar mais medo e desinformação. É fácil então entender porque Bonner incomoda. A procura pela verdade, razão de ser do jornalismo profissional, incomoda. A investigação de crimes assusta os envolvidos. E a crítica atinge egos de líderes instáveis e acostumados a aplausos.

Assim como as fake news servem aos extremos da esquerda e da direita, a Globo e, consequentemente, Bonner se transformaram no emblema maior do lado posto, o jornalismo de fato – e, com isso, viraram alvo do ódio em comum dos dois lados. Ao ser liberado da prisão, em novembro do ano passado, o ex-presidente Lula da Silva, em seu discurso num carro de som, logo criticou a emissora carioca — apontada pelo Partido dos Trabalhadores (PT) como culpada pelo impeachment de Dilma. Uma semana antes, em outubro de 2019, Bolsonaro atacava a Globo aos gritos em vídeo nas redes sociais, ameaçando negar a renovação da concessão do canal. “Temos uma conversa em 2022. Eu tenho que estar morto até lá”, disse.

William Bonner está cansado. Mas ao que tudo indica, ainda tem um longo caminho de resistência pela frente até o país se livrar da nuvem tóxica que o sufoca.

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