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Em 2004, Pedrinho detalhou quadro de depressão a PLACAR

Então no Palmeiras, atormentando por lesões aos 27 anos, meio-campista foi um dos primeiros a falar sobre saúde mental no futebol brasileiro

Por Da Redação Atualizado em 4 ago 2021, 12h14 - Publicado em 29 jul 2021, 07h48

O recente caso de suicídio de um jogador de futebol no Uruguai e a desistência da ginasta Simone Biles, principal estrela dos Jogos de Tóquio, de competir na Olimpíada, realçaram ainda mais a importância de debater a questão da saúde mental no esporte. Há 17 anos, um atleta de destaque do futebol nacional teve a coragem de falar sobre o tema: Pedrinho, então meia do Palmeiras, que, aos 27 anos, atormentado por lesões, detalhou o quadro de depressão que teve de superar para voltar ao jogar.

A reportagem de escrita pelo repórter Felipe Zylbersztajn para a edição de agosto de 2004 detalha o drama vivido pelo hoje comentarista. “Pedrinho chorava compulsivamente todos os dias, mas, com receio de preocupar a família, guardava toda a angústia para si. Sua auto-estima estava em frangalhos e quase ninguém desconfiava. Pensou em abandonar o futebol e em se matar. ‘Eu acordava chorando no meio da noite. Foi horrível’, diz o jogador. ‘Eu fiquei bem assustada. A avaliação psicológica revelou um diagnóstico de depressão profunda em Pedrinho’, afirma a psicóloga Suzy Fleury, indicada por Vanderlei Luxemburgo, técnico do Palmeiras na época, a cuidar do caso. “, diz trecho da reportagem.

  • Pedrinho e Munhoz comemoram pelo Palmeiras em 2004
    Pedrinho e Munhoz comemoram pelo Palmeiras em 2004 PLACAR/Reprodução

    Com respaldo médico e dos familiares, Pedrinho reencontrou a alegria em jogar futebol, mas seguiu sofrendo com lesões. Ele chegou a pedir para o Palmeiras suspender o pagamento de seu salário enquanto estivesse no departamento médico – o clube negou. “Não tive culpa de me machucar. Não posso tomar conta do destino. Peço desculpas por não ter participado, mas quero deixar claro que me esforcei ao máximo para estar em campo em todos os jogos”, afirmou Pedrinho, à época. Relembre a reportagem, na íntegra:

    Corpo fechado

    Se as contusões ainda são um fantasma permanente, Pedrinho aprendeu a lidar com elas. Ele não perde mais o sono – e nem os nervos

    Felipe Zylbersztajn

    Não há palmeirense que não goste do rapaz. Talvez seja a aparência frágil combinada com o futebol sólido que lhe confira tamanha empatia. Talvez sejam as várias demonstrações de lealdade à camisa que tanto agradam o torcedor. Talvez seja a sucessão de dramas que ele vem enfrentando na carreira. Aos 27 anos, Pedrinho já passou por três cirurgias graves nos joelhos. A primeira delas o cortou da Seleção, dois dias antes de sua primeira apresentação. A última, lhe custou dez meses de recuperação e um quadro clínico de depressão grave. Jogando bem novamente, Pedrinho tenta manter uma seqüência razoável de partidas, mas acaba sofrendo seguidas lesões musculares e ressuscitando dúvidas.

    A história do camisa 10 do Palmeiras lembra a do personagem David Dunn, interpretado por Bruce Willis no filme Corpo Fechado (Unbreakable). Dunn, segurança de um estádio de futebol americano, é simplesmente indestrutível ” consegue sobreviver aos mais incríveis acidentes. Pedrinho não passa incólume aos percalços, como Dunn, mas acaba sempre sobrevivendo, para alívio dos palmeirenses.

    É verdade que as constantes visitas ao estaleiro chegaram a ameaçar a condição de unanimidade que Pedrinho sempre usufruiu no Palestra Itália. O nome dele foi incluído numa lista com outros sete atletas “dispensáveis” entregue à diretoria no final de maio pela torcida organizada Mancha Alviverde. Um golpe duro para o jogador, que lutava para voltar ao time. Pouco tempo depois, o nome foi retirado do manifesto, num almoço de confraternização, e o fato, dado como mal-entendido. Mas o episódio deixou (mais algumas) feridas…

    Durante a conversa com Placar, o olhar compenetrado de Pedro Paulo de Oliveira denunciava um jogador maduro, calejado, que não mais se deslumbra com o sonho de todo menino que descobre o futebol como profissão. Já são vinte e um anos de chuteiras, títulos e muitas reviravoltas. “Eu nunca achei que fosse me machucar… Pensei que era só jogar, mas vi que não é assim. E, como aconteceu comigo, pode acontecer com outros garotos que estão surgindo por aí. De repente, vai para um jogo, quebra a perna e muda toda a vida do cara.”

    Apesar de ter crescido em um subúrbio carioca no começo dos anos 80, Pedrinho nunca aprendeu a empinar pipas. Faltou tempo. Bom de bola, teve seu talento precocemente identificado e viveu uma infância bem diferente da dos outros garotos de Vista Alegre. Aos 6 anos, Pedrinho ja era jogador do Vasco da Gama. “Aos 12, ele já tinha ido ao Japão, enquanto eu não havia passado de Nova Iguaçu. Ele sempre foi diferenciado”, diz Alexandre Loureiro, amigo e vizinho em Vista Alegre.

    Pedrinho tinha 5 anos quando o olhar clínico de Irineu, técnico das categorias de base do Vasco, viu algo de diferente no futebol do menino. “O jogo foi em Vista Alegre mesmo. Faltou um garoto para jogar contra o Vasco e como o pessoal sabia que eu brincava direitinho, foram me chamar em casa”, diz o jogador. Depois da partida, o empolgado Irineu convenceu o pai de Pedrinho a levá-lo ao clube de São Januário. Foi aí que tudo começou.

    “Logo depois, o Felipe (hoje no Flamengo) entrou no time. Ficamos bem amigos, mas não nos botavam para jogar”, afirma Pedrinho. Um dia, Shirley, irmã de Pedrinho, resolveu falar com o técnico. “Pô, a gente não está entendendo nada. Vocês tiram o menino de casa, mandam vir até aqui, mas ele só fica sentado no banco…” Poucos jogos depois, Pedrinho entrou no time do Vasco. E não saiu mais.
    Ficou no futsal até os 12 anos, idade com que começou a jogar no campo. Passou por todas as categorias de base até que, em 1995, com 17 anos, subiu para o time profissional.

    Em 1997, teve destaque no Estadual (jogou inclusive no ataque, ao lado de Edmundo) e disputou, com a Seleção, o Mundial Sub-20, perdendo o título para a Argentina. Ainda em 1997, ao lado de Juninho Pernambucano e do amigo Felipe, foi campeão brasileiro pela primeira vez. “Hoje, os meus amigos estão na Seleção. Eu os vejo e fico muito feliz por eles, querendo um dia poder (estar lá também). Mas eu não acredito mais. Se não tivesse me machucado agora… Se eu tivesse tido uma seqüência desde o Paulistão, poderia criar uma expectativa para a Copa América. Mas já não tenho mais a Seleção como meta.”

    O “joelho” de Aquiles
    Pedrinho foi convocado para a seleção principal pela primeira vez por Vanderlei Luxemburgo. Aquele 1998 havia sido um ano bom. Primeiro, a conquista do Estadual. Depois, a Copa Libertadores. Ele era apontado como uma das novas revelações do futebol brasileiro e aquela quinta-feira de setembro foi inesquecível. “Isso me marcou bastante. Ver o meu nome no Globo Esporte ao lado de Ronaldinho, Rivaldo… eu tinha 21 anos.”
    Ele estava com moral. No sábado, jogaria contra o Cruzeiro pelo Brasileiro. A apresentação seria na segunda-feira. Mas foi em São Januário, numa entrada do zagueiro cruzeirense Jean, dois dias antes de sua apresentação à Seleção, que Pedrinho rompeu o ligamento cruzado anterior do joelho direito pela primeira vez.

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    Seguiram-se uma cirurgia para a reconstrução dos ligamentos, muita fisioterapia e esforço durante a recuperação. Pedrinho ficaria sete meses de molho. Foi com o apoio da família que o jogador superou a fase difícil. Recuperado, ele voltaria a jogar em um domingo de abril de 1999, em um amistoso contra o pequeno Duquecaxiense. A partida correu normalmente e Pedrinho não sentiu nenhuma dor. Finalmente, ele poderia voltar a ser uma peça importante no time do Vasco. Agora, era questão de ritmo de jogo. Na quinta seguinte (sempre quinta-feira…), um outro amistoso, contra o Volta Redonda. E, como se estivesse em um pesadelo, pela segunda vez Pedrinho rompe o ligamento cruzado anterior de seu joelho direito.

    Ainda aos 21 anos, retornando aos gramados após uma cirurgia, pronto para “recomeçar”, Pedrinho teria de ficar longe do futebol novamente. As circunstâncias da segunda lesão deixariam qualquer um destroçado. Mas ele suportou. Depois da nova cirurgia, foram mais vários meses de árduo trabalho na sala de fisioterapia. Só em janeiro de 2000 estaria de volta aos gramados…

    O casamento com Marcela, a primeira namorada (que Pedrinho paquerava desde os 12 anos da menina), estava marcado para o dia 22 de dezembro daquele ano. A lua-de-mel não aconteceu porque o Vasco disputava a decisão da Copa João Havelange contra o São Caetano. Ao menos, Pedrinho conseguiu o título, mesmo sem ser titular. Em agosto de 2001, desembarcou no Palmeiras, para jogar o tempo todo. “Naquele ano, eu joguei o Campeonato Brasileiro bem pra caramba. Todo mundo estava feliz. Estava cotado para a Seleção novamente.”

    Mas outra vez o joelho lhe traiu; agora, o joelho esquerdo. Pedrinho rompeu pela espantosa terceira vez (!!!) os ligamentos cruzados. Dessa vez, a barra pesou como nunca. Com 24 anos de idade, uma carreira promissora sucessivamente interrompida em seus picos e longe dos amigos e da família (que ficou no Rio), Pedrinho desabou.

    Foi o aumento de ligações telefônicas recebidas de São Paulo que fez o amigo de infância Alexandre Loureiro perceber que havia alguma coisa de errado com Pedrinho durante a recuperação de sua terceira cirurgia. “Ele começou a me ligar muito. Por telefone, eu o consolava, mas não tinha como fazer muita coisa.” Alexandre pediu demissão de seu emprego de office-boy no Rio de Janeiro e foi ao socorro do amigo. Pedrinho o convidou para morar em São Paulo e trabalhar como seu assessor pessoal. Alexandre não sabia, mas seu amigo estava sofrendo de um caso grave de depressão.

    Durante a recuperação da terceira cirurgia, a família pouco podia fazer por Pedrinho. Marcela havia voltado ao Rio para acabar a faculdade e cuidar dos negócios do casal. No mesmo período, o pai do jogador teve a perna amputada por problemas de circulação e, pouco depois, a mãe teve um derrame, que paralisou todo o lado direito do corpo.

    Pedrinho chorava compulsivamente todos os dias, mas, com receio de preocupar a família, guardava toda a angústia para si. Sua auto-estima estava em frangalhos e quase ninguém desconfiava. Pensou em abandonar o futebol e em se matar. “Eu acordava chorando no meio da noite. Foi horrível”, diz o jogador. “Eu fiquei bem assustada. A avaliação psicológica revelou um diagnóstico de depressão profunda em Pedrinho”, afirma a psicóloga Suzy Fleury, indicada por Vanderlei Luxemburgo, técnico do Palmeiras na época, a cuidar do caso. “No caso dele, havia uma descompensação química e a necessidade de equilibrar isso através de medicamentos.” Além do tratamento psicológico, Pedrinho deveria começar um tratamento psiquiátrico com o doutor Antônio Guerra, indicado pela psicóloga Suzy Fleury.

    Em 2002, Pedrinho seguiria o tratamento psicológico baseado na “Academia Emocional” de Fleury, traçando metas e trabalhando o lado emocional para atingi-las. Com Antônio Guerra, iniciou um tratamento à base de antidepressivos. Isso, além, é claro, do intenso trabalho de fortalecimento muscular (veja o quadro na página 41), feito com o preparador físico Irineu Loturco.

    “Este trabalho foi extremamente importante para mim. Ela (Suzy Fleury) me pegou numa fase muito difícil. Ainda converso quase toda semana com ela; agora, como amigos”, afirma o jogador. A família, agora informada sobre a situação psicológica de Pedrinho, começa a ir com mais freqüência a São Paulo. “Ele não via futuro em nada, só ficava deitado em casa”, diz a irmã Shirley. “Na verdade, ele meio que escondeu isso da gente”, afirma a mulher Marcela. “Quando percebemos o que acontecia, viemos ficar com ele.”

    Após os dez meses (de recuperação física, psicológica e psiquiátrica) mais difíceis de sua vida, Pedrinho, com a carreira dada como encerrada por muitos, finalmente estava preparado para voltar ao futebol. No dia 29 de setembro de 2002, ele entrou no segundo tempo, no empate contra o Santos, na Vila Belmiro. Contrariando as expectativas, Pedrinho estava jogando novamente. Seria tudo lindo, não fosse o teste antidoping.
    O exame após a partida detectou bupropiona, substância presente no antidepressivo Wellbutrim, que Pedrinho tomava àquela época. Depois de alguma confusão com a CBF, a substância não foi considerada doping e o jogador nem chegou a ser suspenso. Foi mais um susto.

    Trabalhar de graça?

    Desde então, Pedrinho tenta manter uma seqüência razoável de partidas, mas vem sentindo constantes lesões. “Desde a terceira cirurgia, o que o Pedrinho tem tido são edemas musculares, uma espécie de pré-lesão. Ele passou 16 rodadas jogando direto e teve um edema muscular. Isso é normal em qualquer jogador “, diz Irineu Loturco.

    Numa de suas demonstrações de “amor à camisa” que tanto agradam os torcedores, Pedrinho disse que chegou a propor, em setembro do ano passado, que deixasse de receber salários enquanto não pudesse atuar pelo Palmeiras. O presidente do clube, Mustafá Contursi, não aceitou.
    “Sei que algumas pessoas deixaram de me apoiar pois contavam comigo e eu não estava disponível, mas, certamente, estou mais chateado do que eles (por não jogar regularmente). Não tive culpa de me machucar. Não posso tomar conta do destino. Peço desculpas por não ter participado, mas quero deixar claro que me esforcei ao máximo para estar em campo em todos os jogos.”

    Irineu Loturco diz que Pedrinho é um dos profissionais mais dedicados que ele já conheceu. “Não falo me gabando, mas eu sempre dei o meu máximo nas recuperações de lesão. Mais do que qualquer outro jogador. Eu me trato aos sábados e domingos, de manhã, de tarde e de noite”. Segundo Irineu, além disso, “Pedrinho é um atleta que se preocupa com a alimentação e com o sono”. No apartamento que divide com o amigo de infância e assessor Alexandre, a regra é simples: dez da noite é hora de dormir. “E ele só dorme se estiver tudo escuro. Passou das dez, é cama. Fica tudo quieto por aqui”, diz o amigo.

    Hoje, curado da depressão e dos joelhos, sem tomar mais remédios, Pedrinho ” que chegou a ser multado pelo clube por criticar o técnico Estevam Soares, incorformado por ser substituído sistematicamente ” não esconde sua preocupação com os torcedores. “A cobrança por eu me machucar muito ainda mexe comigo. Às vezes, estou com um problema que exige duas semanas de recuperação, mas a pressão é muito grande para que eu volte em uma, e essas semanas se transformam em quatro. Sempre peço por mais tratamento e às vezes isso me atrapalha.” Ou seja: o fantasma ainda aparece, mas não faz mais Pedrinho perder o sono e nem a alegria de viver.

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