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Sobre Palavras Por Sérgio Rodrigues Este blog tira dúvidas dos leitores sobre o português falado no Brasil. Atualizado de segunda a sexta, foge do ranço professoral e persegue o equilíbrio entre o tradicional e o novo.

Tagarelice

Por Sérgio Rodrigues - Atualizado em 31 jul 2020, 06h51 - Publicado em 17 fev 2013, 17h29

Um dia me dei conta por acaso de que poucas palavras reúnem mais sinônimos formais e informais em português do que tagarela. O fenômeno é ao mesmo tempo apropriado e perturbador. Diante de tagarela, aquele que fala demais, os dicionários de sinônimos são acometidos de irremediável tagarelice.

Entre termos vernaculares, regionalismos, gírias vivas e mortas, o tagarela pode ser – ou um dia já foi, em algum lugar – chamado de aldeaga, bacharel, bocarela, boca-rota, boquirroto, chocalheiro, comunicativo, conversador, copioso. E ainda estamos na letra C.

A lista alfabética – colhida em sua maior parte no Houaiss – prossegue com espanta-lobos, falador, francelho, galrão, golelheiro, gralhador, grazina, indiscreto, língua-comprida, língua-solta, linguaraz, linguareiro, linguarudo, logomaníaco, logorreico, loquaz. Ufa: com oito verbetes, será que alguma letra consegue bater o L na tagarelice?

O P bem que procura, mas para em meia dúzia. Depois de maritaca e matraca, temos palavroso, palrador, papagaio, papudo, pararaca e prosador. Quem acaba levantando a taça de forma surpreendente é a letra T, com seu time de nove jogadores formado por tarambela, taramela, tarameleiro, tarela, tarelo, tartalha, terlinta, traga-malha e tramela. Verborrágico, verboso e vitrola encerram o desfile.

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Não é garantido que essa abundância vocabular queira dizer alguma coisa profunda sobre a alma nacional. Se fosse tão simples o mundo das palavras, o adjetivo sucinto não teria tantos sinônimos: abreviado, breve, breviloquente, compendiado, compendioso, curto, epitomado, lacônico, pequeno, reduzido, restrito, resumido, sinóptico, sintético, sintetizado, substanciado, sucinto, telegráfico. Ué, não era para ser sucinto?

Nada que se compare, claro, à riqueza do tagarela. Sem ela, o que seria da tagarelice do cronista?

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