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Sobre Palavras Por Sérgio Rodrigues Este blog tira dúvidas dos leitores sobre o português falado no Brasil. Atualizado de segunda a sexta, foge do ranço professoral e persegue o equilíbrio entre o tradicional e o novo.

Sobre línguas e catedrais: uma conversa com Amós Oz

“Não sou chauvinista com meu país, mas sou chauvinista com a língua hebraica.” Estou conversando com o escritor israelense Amós Oz num canto tranquilo de um dos amplos espaços vazios do segundo andar do aristocrático hotel Copacabana Palace. Depois de muitas perguntas sobre literatura e política, que renderam a entrevista publicada no mesmo dia no […]

Por Sérgio Rodrigues Atualizado em 31 jul 2020, 10h11 - Publicado em 13 nov 2011, 12h57

“Não sou chauvinista com meu país, mas sou chauvinista com a língua hebraica.” Estou conversando com o escritor israelense Amós Oz num canto tranquilo de um dos amplos espaços vazios do segundo andar do aristocrático hotel Copacabana Palace. Depois de muitas perguntas sobre literatura e política, que renderam a entrevista publicada no mesmo dia no Todoprosa, o papo desagua com naturalidade na língua, como se fosse um rio que corresse para o mar.

Conversamos em latim contemporâneo, isto é, inglês. Sei tanto de hebraico, clássico ou moderno, quanto Amós Oz sabe de português – talvez um pouco menos. Mas, como já me deparei muitas vezes com a metáfora do idioma como instrumento musical que todo escritor precisa dominar, entendo o brilho nos olhos do homem quando ele se derrama todo por uma língua antiga que por pouco não ficou congelada nos textos sagrados, perfeita e morta como o latim num poema de Ovídio. Salva há pouco mais de um século de um declínio que parecia inexorável, a língua em que escreve Oz vem se firmando nas últimas décadas, como o próprio Estado de Israel, sobre um ato de vontade política.

“O hebraico moderno é um instrumento tremendo, porque é ao mesmo tempo antigo e moderno”, ele diz. “É cheio de ecos da antiguidade, os salmos e profetas estão todos lá, e no entanto é uma língua contemporânea, parecida em certo sentido com o inglês elisabetano, sobre a qual escritores e poetas ainda podem legislar. Uma língua em construção, que muda um pouco com cada leva de imigrantes que chega a Israel: ganha nova sintaxe, novo vocabulário, novas gírias.”

Depois de uma breve pausa para o humor – “quando comparo o hebraico moderno ao inglês elisabetano, é claro que não estou dizendo que todos os nossos poetas são Shakespeare: não devemos ter mais de meia dúzia desses em Tel Aviv hoje” –, chegamos a um momento mágico em que a conversa parece se fundir com o cenário. “É preciso ter muito cuidado com esse instrumento maravilhoso, como quem toca órgão numa catedral, para não conjurar ecos monstruosos”, prossegue Oz. “O hebraico antigo ainda está muito presente no moderno. Se você tocar sem querer certas cordas bíblicas, soa grotesco, ridículo. Isso é ótimo para a paródia e a ironia, mas você precisa saber o que está fazendo. É um campo minado.”

O pé direito alto do salão vazio em que nos encontramos parece ilustrar esse bonito argumento. Me ocorre então um pensamento que, embora talvez óbvio, recebo como uma revelação: toda língua é, em alguma medida, uma caixa de ressonância e um campo minado. Se um escritor de língua portuguesa dificilmente evocará profetas, pode, de propósito ou não, conjurar num único texto os fantasmas de Camões, Vieira, Machado, Bandeira, Vinicius. Ou Didi Mocó. É a tradição literária acumulada e o peso que ela tem na cultura geral, dependente do grau de letramento da sociedade, que vai determinar no fim das contas a intensidade dessa reverberação – a altura do pé direito, por assim dizer, que tanto pode ser o de uma catedral magnífica como o de uma capelinha de província.

Sentado ao órgão, o escritor produz a música que seu talento lhe sopra, claro, mas também aquela que sua caixa de ressonância lhe permite produzir. Ao mesmo tempo, ao contrário do que ocorre no mundo físico – o que demarca o limite da metáfora oziana –, os acordes que saem dos tubos têm o potencial de sustentar o teto, impedindo que ele desabe e até, nos casos mais felizes, ajudando a elevá-lo.

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