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Sobre Palavras Por Sérgio Rodrigues Este blog tira dúvidas dos leitores sobre o português falado no Brasil. Atualizado de segunda a sexta, foge do ranço professoral e persegue o equilíbrio entre o tradicional e o novo.

Por que obsessão e obcecado têm grafias diferentes?

Por Sérgio Rodrigues - Atualizado em 17 fev 2017, 10h05 - Publicado em 18 jul 2013, 11h31

“Parabenizo a coluna por transmitir conhecimento sobre a língua portuguesa de uma maneira bastante agradável. A propósito, uma inquietação minha é saber por que a palavra obcecado, que deriva de obsessão, é escrita com c. Obrigado.” (Marcio Castro Brandão)

A diferença de grafia observada por Marcio tem uma explicação simples: obcecado não tem relação etimológica com obsessão. Trata-se de duas famílias diferentes de palavras, com algumas semelhanças de sentido que, aliadas à semelhança da forma, tornam comum a confusão.

O substantivo ao qual se liga o adjetivo obcecado é obcecação, enquanto o adjetivo que corresponde ao substantivo obsessão é obsesso (ou, em determinados casos, obsessivo). Ocorre que tanto obcecação quanto obsesso são vocábulos pouco empregados. Na prática, obcecado e obsessão acabam de fato formando um par – o que não está propriamente correto, mas tampouco traz prejuízo para a comunicação, na maioria dos casos.

Isso se dá porque obcecação, do latim obcaecationis (“tornar cego, obscurecer a razão”), e obsessão, do latim obsessionis (“ação de sitiar, assédio”), convergem na linguagem comum, partindo de pontos diferentes, para o mesmo foco semântico: o da ideia fixa. Nas palavras do Houaiss, obcecação é “obscurecimento da razão; insistência numa determinada ideia; pertinácia excessiva”, e obsessão, “apego exagerado a um sentimento ou a uma ideia desarrazoada; motivação irresistível para realizar um ato irracional; compulsão”. Não se trata de identidade absoluta, mas as diferenças são sutis.

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Se as semelhanças de sentido as tornaram intercambiáveis na maioria dos contextos presentes na linguagem comum, é importante observar que as palavras obcecação e obsessão não se confundem em tudo. Quando se exige maior precisão técnica, elas se distanciam de modo categórico: a primeira tem a acepção médica de cegueira parcial; a segunda, a velha acepção religiosa de assédio ao espírito exercido por demônios e a moderna acepção psicopatológica de neurose obsessivo-compulsiva. Nesses casos seria um erro grave estabelecer qualquer relação, mesmo informal, entre o substantivo obsessão e o adjetivo obcecado.

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