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Por que o conto-do-vigário tem esse nome

“Por que o conto do vigário se chama assim? Será que algum religioso bandido deixou a classe inteira com má reputação?” (Aristides Ferreira)

Não, Aristides. A expressão brasileira conto-do-vigário (lá embaixo eu explico por que a estou grafando assim) não tem em sua origem um golpista de batina. O vigário entrava na história apenas como personagem, ajudando a dar ares respeitáveis à lorota do trapaceiro.

Eis como o filólogo Antenor Nascentes descreve o golpe do conto-do-vigário em seu “Tesouro da fraseologia brasileira”:

Modalidade de furto na qual o ladrão conta à futura vítima (o otário) uma história complicada de grande quantidade de dinheiro (originalmente entregue pelo vigário de sua freguesia), ali presente dentro de um embrulho (o paco), dinheiro este que ele deseja confiar provisoriamente, por comodidade ou necessidade, a uma pessoa honesta em troca de algum dinheiro miúdo de que precisa no momento.

Vale notar que a palavra composta passou a nomear, além deste, diversos outros tipos de logro em que o criminoso explora a ingenuidade ou a ganância das vítimas para lhes arrancar dinheiro. E mesmo, por extensão, qualquer manobra – inclusive aquelas feitas por pessoas e empresas supostamente respeitáveis – destinada a enganar incautos.

O sucesso linguístico do conto-do-vigário levou a palavra a dar filhotes que têm circulação ainda maior do que ela: vigarista e vigarice.

Vamos enfim à ortografia: conto-do-vigário era seguramente uma palavra composta, com hífen, até o Acordo Ortográfico entrar em vigor e abolir os tracinhos em expressões desse tipo – “salvo algumas exceções já consagradas pelo uso”. Bonito, não? Será que conto-do-vigário é uma exceção? Consagrada pelo uso a palavra é. Eis por que, embora ela não apareça no Vocabulário Ortográfico da Língua Portuguesa (Volp), decidi manter a grafia tradicional. O Acordo Ortográfico é lei e eu tento cumpri-la. Pena que ele não ajude.

*

Envie sua dúvida sobre palavra, expressão, dito popular, gramática etc. Às segundas e quintas-feiras o colunista responde ao leitor na seção Consultório. E-mail: sobrepalavras@todoprosa.com.br

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  1. Comentado por:

    José Carlos Lopes

    Se o negócio é com um montão de dinheiro deveria chamar-se conto- do-past… Bom, a televisão aplica esse golpe todo dia nos incautos de boa fé, impunemente, claro. Nesse país a impunidade é padrão em toda safadeza.

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  2. Comentado por:

    Celso

    O conto do vigário é também associado com a venda de imóveis rurais no início da colonização portuguesa do Brasil. Como não havia cartório de registro de imóveis, este registro ficou a cargo das paróquias. Os estelionatários da época forjavam títulos de propriedade como se fossem emitidos pelo vigário local.

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  3. Comentado por:

    Celso

    Hoje esta venda de títulos de propriedade rural é mais conhecida como grilagem de terras. Mas agora é feita em cartórios. E veja que isso dá cadeia braba. Mas não em todos os casos. Alguns acabam em morte daqueles que insistem em permanecerem como proprietários da terras griladas. Grileiros famosos tem muitos no Congresso Nacional. Qual é o grilo? É cibalena ou cibazol?

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  4. Comentado por:

    Luiz Carlos Andrade

    Caro Sérgio, embora lei, por ora (nem me lembra até quando), ainda é válida a ortografia “antiga”.

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