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O ‘pollo’ pulou no poleiro: tudo em casa

“A palavra puleiro – apoio de galinhas no galinheiro ou de aves em suas gaiolas – tem algo a ver com ‘pular’ ou é derivada do espanhol ‘pollo’ (galinha)?” (Kirsten Woltmann)

A consulta de Kirsten é tão boa que acerta até quando erra a ortografia: a palavra é “poleiro”, mas existe mesmo certo grau de parentesco entre ela e o verbo pular. Assim como entre ela e o pollo (“frango”) da língua espanhola e outras palavras que à primeira vista nada deveriam ter a ver com isso – como pimpolho e repolho.

Repolho? Sim, quem diria: frango com repolho pode ser ou não ser um bom prato, mas é certo que guarda uma medida de redundância etimológica.

O que todos esses vocábulos têm em comum é um ancestral latino de grande fecundidade: o substantivo pullus, “cria, rebento”, palavra que a princípio era usada para designar tanto “criança queridinha, galantinha, bochechuda, gordinha” quanto “burrico, jumentinho” e “pintainho, patinho, filhinho de águia”, nas palavras do dicionário Saraiva. Filhotes de espécies variadas, como se vê.

De todas as acepções clássicas, é legítimo supor que a de filhote de ave – em especial de galinha – fosse a que se conservava mais viva no latim vulgar, pois foi ela que passou às línguas neolatinas: além do já citado pollo espanhol, existe o poule francês (“galinha”) e o “pôlo” português, regionalismo açoriano que o Houaiss registra com o sentido de “falcão ou gavião com menos de um ano”.

Mas o velho pullus não se contentou com esses descendentes diretos. Também cresceu para os lados e, ainda no latim, deu origem ao verbo pullare, “brotar, germinar”, matriz do nosso pular, “saltar”. O que a princípio parece estranho, mas só até pensarmos na explicação oferecida pelo filólogo brasileiro Antenor Nascentes: ora, a planta que germina salta para fora da terra, não?

Estendida ao reino vegetal a ideia original de pullus, “rebento”, por tal caminho se fizeram em espanhol dois termos que o português importou: repollo e pimpollo, este destinado a retornar ao reino animal na acepção figurada de “criança pequena”.

*

Envie sua dúvida sobre palavra, expressão, dito popular, gramática etc. Às segundas e quintas-feiras o colunista responde ao leitor na seção Consultório. E-mail: sobrepalavras@todoprosa.com.br
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  1. Comentado por:

    Casca Fina

    Muito bom.
    Vivendo e aprendendo.
    Suas aulas revelam a riqueza da etimologia.
    É isso.

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  2. Comentado por:

    Alexandre Leonardo Silva

    Essa foto da matéria parece uma imagem de uma antiga propagando ganhadora de prêmios de publicidade da agencia Stylus propagando do sr. Hamilton Carneiro; que também trabalha divulgando musicas,costumes, ditos e expressões da nossa cultura. http://www.styluspropaganda.com.br/premios.php

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  3. Comentado por:

    Luciano

    Lindoooo! Diante da monumentalidade, da beleza e da extraordinária estrutura evolutiva que teve – e continua a ter – as línguas neolatinas ao longo dos séculos, é aviltante constatar o quanto nosso idioma tem sido vilipendiado e massacrado por indivíduos que se utilizam de artifícios como as linguagens “cifradas” do “internetês”, ou ainda que escrevem verdadeiras monstruosidades em redações de concursos escolares, ou em um simples correio interno no local de trabalho (esse então, um verdadeiro Deus-nos-acuda!), para descrever ou transcrever suas ideias, pensamentos, recados, opiniões etc!
    Um verdadeiro “salve-se quem puder”!
    Salvemos, pois, o nosso Português!

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  4. Comentado por:

    Floriano Lott

    O nosso bom Antenor Nascentes tirava água da pedra…

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