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Sobre Palavras Por Sérgio Rodrigues Este blog tira dúvidas dos leitores sobre o português falado no Brasil. Atualizado de segunda a sexta, foge do ranço professoral e persegue o equilíbrio entre o tradicional e o novo.

O futebol entre o ‘football’ e o ‘soccer’

“Nobre Sérgio, como qualquer brasileiro adoro um bom futebol, mas nunca entendi o fato de os americanos colocarem a alcunha ‘football’ em um esporte jogado na maioria do tempo com a bola nas mãos e denominar o nosso bom e velho ‘ludopédio’ de um termo tão esdrúxulo: o afamado ‘soccer’. Seria essa mais uma das […]

Por Sérgio Rodrigues Atualizado em 31 jul 2020, 07h37 - Publicado em 18 out 2012, 15h29

“Nobre Sérgio, como qualquer brasileiro adoro um bom futebol, mas nunca entendi o fato de os americanos colocarem a alcunha ‘football’ em um esporte jogado na maioria do tempo com a bola nas mãos e denominar o nosso bom e velho ‘ludopédio’ de um termo tão esdrúxulo: o afamado ‘soccer’. Seria essa mais uma das excentricidades do Tio Sam? Grato pela atenção.” (Sinval Pereira do Nascimento)

Sim, de certa forma é possível dizer, como Sinval, que chamar nosso futebol de soccer é uma excentricidade da cultura americana, que sempre foi marcada por certa autossuficiência continental. No entanto, existem raízes históricas que explicam isso: o futebol, o rúgbi e o futebol americano evoluíram de um mesmo jogo de bola – de regras variáveis ao longo do tempo e de lugar para lugar – que teve seu primeiro registro com o nome de football na Escócia do século 15, segundo o dicionário etimológico de Douglas Harper.

Harper acrescenta que, por volta de 1630, aquele football primitivo tinha virado febre na Inglaterra. A primeira sistematização de regras foi feita na universidade de Cambridge em 1848, mas sua validade expirou em menos de duas décadas. Logo ocorria uma cisão fundamental para o panorama esportivo como o conhecemos. Aquilo que logo ficaria conhecido como rugger (gíria formada a partir de Rugby, nome de uma cidade inglesa que se distinguia nessa modalidade) foi para um lado, com sua bola oval e sua permissão do uso das mãos, enquanto soccer (palavra composta com uma das sílabas de association, “associação”) passava a nomear informalmente o jogo da turma que aderiu à Football Association, a liga dos pés. Nunca mais os dois times se encontraram.

No fundo, todos esses esportes são variações de football, palavra que até hoje mantém em inglês a acepção de termo genérico. No entanto, a popularidade superior, na Grã-Bretanha, do futebol como nós o entendemos fez com que fosse este – o de Messi, Neymar e Rooney – a conservar preferencialmente o nome de football, sem qualificativos, enquanto o outro virava rugby, aqui aportuguesado como rúgbi. Tal nomenclatura foi sendo exportada para o resto do mundo na virada do século 19 para o 20, à medida que o futebol cruzava fronteiras com o sucesso que se conhece.

Os EUA foram a principal exceção. Lá, por alguma razão, o futebol jogado com os pés encontrou solo árido – como ainda encontra, embora tenha evoluído de forma marcante nas últimas décadas – e o rugby, adaptado, fez sucesso imediato. Já em 1869 tinha regras próprias, como o uso de armaduras almofadadas pelos jogadores e as interrupções constantes, mas manteve o nome de football.

Foi assim que aquilo que no inglês americano é só football ganhou no resto do mundo o nome de American football, “futebol americano”, para evitar confusão com o esporte mais popular do planeta. Pelo mesmo motivo, os falantes dos EUA foram buscar aquela gíria universitária britânica, soccer, a fim de nomear o futebol dos outros.

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