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Sobre Palavras Por Sérgio Rodrigues Este blog tira dúvidas dos leitores sobre o português falado no Brasil. Atualizado de segunda a sexta, foge do ranço professoral e persegue o equilíbrio entre o tradicional e o novo.

Infinitivo pessoal, que complicação é essa?

“Li a seguinte frase em uma revista: ‘Para mantermos o casamento, começamos a fazer terapia’. Isso está certo? Sempre achei que fosse ‘Para manter o casamento, começamos a fazer terapia’. O ‘manter’ vai para o plural ou não vai?” (Giovanna Ferreira da Silva) Com sua consulta, Giovanna abre um dos baús sem fundo do português, […]

Por Sérgio Rodrigues Atualizado em 31 jul 2020, 11h08 - Publicado em 11 ago 2011, 14h26

“Li a seguinte frase em uma revista: ‘Para mantermos o casamento, começamos a fazer terapia’. Isso está certo? Sempre achei que fosse ‘Para manter o casamento, começamos a fazer terapia’. O ‘manter’ vai para o plural ou não vai?” (Giovanna Ferreira da Silva)

Com sua consulta, Giovanna abre um dos baús sem fundo do português, o do infinitivo pessoal. A resposta à sua dúvida é simples: tanto faz, as duas formas estão corretas. Mas isso está longe de esgotar o assunto, algo que seria impossível nos limites desta coluna. O infinitivo pessoal dá um livro. Vamos falar aqui de algumas linhas gerais.

Quando se iniciou no estudo de português em Budapeste, anos antes de se refugiar no Brasil, fugindo do nazismo, o erudito Paulo Rónai ficou mordido de ciúme. “A descoberta do infinitivo pessoal foi uma surpresa e abalou-me bastante o orgulho patriótico, pois julgava-o uma riqueza exclusiva do húngaro”, anotou ele num artigo de 1948, reproduzido no livro “Como aprendi o português”.

Trata-se de uma riqueza compartilhada. O infinitivo pessoal é uma peculiaridade linguística (chamada tecnicamente de idiotismo, que não tem nada a ver com idiotice) que só existe no húngaro, no português e, dizem, em alguns dialetos italianos. Há quem o encare com mau humor, considerando-o uma complicação maluca: caramba, se é infinitivo, isto é, o “ponto morto” do verbo, como pode ser pessoal, ou seja, flexionado – não existe uma contradição aí? Existe. Eis a beleza da coisa.

Muitas “leis” já foram formuladas pelos gramáticos sobre o assunto, mas umas não batem bem com as outras e a maioria comporta exceções. Em vez de leis, é melhor falar em “tendências”, para usar uma palavra do gramático Celso Cunha. Uma dessas tendências é a de flexionar o infinitivo quando, regido de preposição, ele aparece antes da oração principal – justamente o caso apontado por Giovanna. “Para mantermos, fizemos…”. A construção está perfeita, mas vale notar que também estaria correta se o verbo não fosse flexionado: “Para manter, fizemos…”. No primeiro caso o verbo “manter” tem um sujeito desinibido; no segundo, o praticante da ação (“nós”) é o mesmo no plano lógico, mas se refugia atrás da impessoalidade, como se relutasse em se comprometer sintaticamente. Nuances.

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Antes de prosseguir, convém lembrar que a flexão do infinitivo não se aplica nem à primeira nem à terceira pessoa do singular, eu e ele. Dizemos “para eu fazer” e “para ele/ela fazer”. No singular, apenas a segunda pessoa, tu, pode flexionar o infinitivo, como ocorre na bela canção “O quereres”, de Caetano Veloso, que usa o infinitivo substantivado, aquele precedido de artigo: “O quereres e o estares sempre a fim/ Do que em mim é de mim tão desigual…”.

Apesar da insistência quase didática do compositor baiano, há quem afirme equivocadamente que o infinitivo pessoal só ocorre no plural. O erro, se não chega a ser perdoável, é compreensível. A brasileiríssima substituição de tu por você – pronome que leva o verbo para a terceira pessoa do singular – faz com que na língua do dia a dia o infinitivo pessoal costume se restringir mesmo ao plural. Na quase totalidade dos casos, a nós e eles.

Costuma ser boa política dar prioridade ao infinitivo não flexionado e só usar a flexão quando ela for útil à clareza e, digamos, à “lógica” da frase. Isso ocorre nos casos em que seu sujeito não for o mesmo da oração principal: “Viu televisão até seus olhos doerem”; “Desistiu da viagem por serem precárias as condições da estrada”; “O forasteiro se admirou de vivermos nessas condições”.

Quando o sujeito do infinitivo é o mesmo da oração principal, a flexão costuma soar excessiva. Deve-se evitar uma construção como “Estudamos para aprendermos”. Por incrível que pareça, alguns gramáticos a defendem quando a idéia é enfatizar a ação de aprender e quem a pratica. Não me parece um bom motivo para abrirmos mão da elegância, simplicidade e eufonia da forma consagrada: “Estudamos para aprender”. Uma ressalva a tal tendência é justamente aquela mencionada acima, a propósito da consulta de Giovanna: a do infinitivo que antecede a oração principal.

As locuções verbais são uma prova de que o ouvido é bom juiz. Quando o infinitivo vem acompanhado de um verbo auxiliar, soa mal demais a flexão. Diz-se “Nós vamos ficar em casa, mas eles vão sair”, e nunca “Nós vamos ficarmos em casa, mas eles vão saírem”. Existem na literatura alguns exemplos de flexão em tais casos, quando o verbo principal vem muito afastado do auxiliar e o autor a julga necessária à clareza. Mas são exceções.

Eis algumas “tendências”. Há outras. O que acho importante destacar é a relativa liberdade que o infinitivo pessoal nos concede, bem distante do mau humor das listinhas de regras.

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