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Sobre Palavras Por Sérgio Rodrigues Este blog tira dúvidas dos leitores sobre o português falado no Brasil. Atualizado de segunda a sexta, foge do ranço professoral e persegue o equilíbrio entre o tradicional e o novo.

Faz sentido usar ‘você’ como sujeito indeterminado?

“Muito comum o uso do pronome de tratamento ‘você’ em substituição do reflexivo ‘se’ indeterminado. Exemplo: o Sr. ministro da Fazenda, respondendo perguntas de repórteres sobre como controlar a inflação, responde : ‘…você faz assim ou assado…’. Neste e em muitos outros casos semelhantes, noto que estamos esquecendo por completo o uso do pronome reflexivo […]

Por Sérgio Rodrigues Atualizado em 31 jul 2020, 02h43 - Publicado em 3 nov 2014, 13h42

“Muito comum o uso do pronome de tratamento ‘você’ em substituição do reflexivo ‘se’ indeterminado. Exemplo: o Sr. ministro da Fazenda, respondendo perguntas de repórteres sobre como controlar a inflação, responde : ‘…você faz assim ou assado…’. Neste e em muitos outros casos semelhantes, noto que estamos esquecendo por completo o uso do pronome reflexivo ‘se’ indeterminado: ‘você responde’… ao invés de ‘responde-se’. Qual a sua resposta para o uso tão corriqueiro em nosso linguajar do ‘você’ em substituição do ‘se’? Grato.” (Rubião de A. Barros)

Tudo depende do contexto. O uso de “você” para indicar um agente genérico é consagrado na linguagem familiar, informal, coloquial: “Você trabalha a vida inteira e, no fim, recebe essa merreca da previdência”. Trata-se de uma forma muito empregada no discurso oral.

Em situações um pouco mais formais, Rubião está certo, deve-se dar preferência à construção na terceira pessoa do singular com o pronome “se”: “Trabalha-se a vida inteira e, no fim, recebe-se essa quantia irrisória da previdência”. É o uso preferido na linguagem escrita.

Há outras formas de indicar um sujeito genérico, com gradações quanto à indeterminação (pode incluir o falante? E o ouvinte?). Tratar de todas elas nos levaria para longe da consulta de Rubião. Basta dizer que, em sua “Gramática de usos do português”, Maria Helena de Moura Neves menciona vários desses usos, daqueles que são comuns na língua culta (“Jogaram alguém na piscina”) aos que têm “registro mais popular” (“Lá tira título de leitor, documento”).

Maria Helena não inclui em sua lista o brasileiríssimo “neguinho”, tão informal que chega perto de fazer o “você” genérico parecer cerimonioso: “Neguinho trabalha a vida inteira e, no fim, recebe essa merreca da previdência”.

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