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‘Ele foi para a sua casa’ ou ‘ele foi para a casa dele’?

“Olá, Sérgio. A minha dúvida é a seguinte: tenho ouvido muita gente (inclusive na mídia) dizer, por exemplo: ‘O suposto assassino fugiu da cadeia e foi para a sua casa’. No meu entender, a frase correta seria: ‘O suposto assassino fugiu da cadeia e foi para a casa dele’.” (Mitsuzi Arake)

O pronome possessivo da língua portuguesa para a terceira pessoa é seu(s)/sua(s). No entanto, a contração dele(s)/dela(s), que pode cumprir função semelhante, muitas vezes é indispensável quando se trata de evitar ambiguidade. Isso ocorre tipicamente quando há múltiplas relações de posse em jogo: “Sua festa vai ser um sucesso, Luísa. Joana ficou de levar os amigos dela, e João os dele”.

Existirá ambiguidade na frase citada por Mitsuzi? Depende do contexto em que estiver inserida. Se for numa notícia de jornal, não existe ambiguidade alguma. Como há apenas uma pessoa mencionada (o suposto assassino), “sua casa” só pode se referir à casa dele – salvo numa lógica de pesadelo em que o leitor, enlouquecido de paranoia, acreditasse ter sido a notícia escrita exclusivamente para ele, como um alerta, e passasse a procurar o tal foragido debaixo da cama. Como a hipótese é comicamente desprezível, podemos concluir que não há problema com a construção.

Haveria ambiguidade se, em vez de um texto de massa, a frase surgisse em mensagem endereçada a um destinatário específico – fosse fala, carta ou e-mail. Nesse caso continuaria a haver apenas uma pessoa mencionada (o suposto assassino), mas a situação de comunicação envolveria também o receptor da mensagem. Como o pronome de tratamento mais empregado no português brasileiro é você, cujo possessivo é seu/sua, não seria absurdo interpretar a frase desta forma: “O suposto assassino fugiu da cadeia e foi para a sua casa – tranque a porta e ligue imediatamente para a polícia!”. Assim, “a casa dele” seria recomendável nesse caso.

*

Envie sua dúvida sobre palavra, expressão, dito popular, gramática etc. Às segundas, quartas e quintas-feiras o colunista responde ao leitor na seção Consultório. E-mail: sobrepalavras@todoprosa.com.br

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  1. Comentado por:

    Luciano

    Basta dizer que foi para casa. No meu entender, aqui o possessivo, seja seu seja dele, é completamente dispensável e enfeia a frase.

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  2. Comentado por:

    sergiorodrigues

    Luciano, neste caso é mesmo dispensável. Mas não era essa a consulta.

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  3. Comentado por:

    Hélio Corrêa

    Não há aulas de BOM Português nas faculdades de Jornalismo? PArece-me carecerem desse “pormenor” visto os grosseiros erros cometidos, principalmente aqui no RS.

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  4. Comentado por:

    Lauro

    E para que existe o tua? Se foose a casa de quem lê, não seria: João fugiu da cadeia e foi para tua casa.

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  5. Comentado por:

    Ronaldo

    Se as palavras fazem parte do seu dia a dia tudo é muito claro, mas se vc é alguém dos números ou da programação a coisa fica esquisita. É como se a dúvida, mesmo na hipótese remota, tirasse a lógica da língua.

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  6. Comentado por:

    carlos alberto

    O leitor é uma lamentável vítima da escola estupidificante de jornalismo. Não há, e você pode notar facilmente, a menor chance da imprensa usar o pronome possessivo seu(s)/sua(s) e isto trás consequências. A razão primária dessa padronização poderia ser o louvável “evitar ambiguidade” mas tenho para mim que o locutor não acredita no ouvinte e o trata como um ignorante.
    .
    Notícia ouvida no rádio: “Família assaltada tem a filha dela levada de refém pelo assaltante”.
    .
    Do ponto de vista do consulente, não há construção possível para abraçar o pronome seu(s)/sua(s), pois não?

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  7. Comentado por:

    Thales

    Não seria o caso de se usar o pronome na segunda pessoa do singular? Se a expressão fosse “tua casa” seria impossível confundir.

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  8. Comentado por:

    Mario Silva

    Quer mais confusão? “O indivíduo matou o cunhado e foi para sua casa”. Nesse caso, trata-se da casa de quem? Do indivíduo? Do cunhado? Ou do leitor?

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  9. Comentado por:

    Ricardo C.

    Esse jornalismo “técnico” ensinado nas faculdades, cujos alunos, majoritariamente, são quase todos semi-alfabetizados, é uma das coisas que mais contribuem à má linguagem, à linguagem obscura. [O pior é que termina por contaminar parte da sociedade em que se devia encontrar uma linguagem inteligente, clara.] Jornalistas dos quais se pode dizer que realmente conhecem a língua, contam-se nos dedos. A grande maioria passa dificuldade quando precisa sair da linguagem tecnicamente engessada do jornalismo. Outro agravante é que essa mesma gente “decreta” sobre a língua, já aboliram por exemplo os pronomes referentes à 2ª pes. sing., como já notaram alguns comentaristas.] Tomo a liberdade de transcrever uma nota de Olavo de Carvalho sobre o tema.
    “Antigamente os jornalistas eram escritores que, não podendo viver de livros, encontravam nas redações a salvação do orçamento doméstico. Eram homens de boa formação literária, agudamente conscientes dos problemas da expressão escrita, sensíveis a nuances de estilo, cuidadosos em evitar tudo o que soasse falso, forçado, postiço. As faculdades e a “modernização” das redações nos anos 60 acabaram com essa geração e a substituíram por uma horda de garotos semi-alfabetizados, adestrados numa escrita padronizada que copiavam do NY Times. Mas nem essa técnica de retardados mentais o pessoal de hoje domina,
    Sempre me bati contra a idéia de que o jornal fosse “um produto industrial”, que implicava a uniformidade da primeira à última página. Um jornal, dizia, não é um produto, é muitos produtos, é um supermercado inteiro. É claro que ninguém me deu ouvidos. A loucura da padronização chegou ao ponto em que as páginas eram diagramadas de antemão e depois preenchidas com notícias que tinham de se arranjar para caber em espaços fixos, sob títulos com número predeterminado de letras, tudo
    cada vez mais apertado. Um dia o editor da minha página no Jornal da Tarde me pediu um título com exatamente duas linhas, duas, vejam só, e de cinco letras (e espaços) cada uma. Ah, é?, respondi. Pois não. E mandei bala:
    NO **
    ****.”

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  10. Comentado por:

    Walter Santos

    John critica Kerry; povo o apoia. Povo apoia quem mesmo? A intenção do redator era dizer que o povo apoiava John em sua crítica a Kerry. Mas a leitura que se faz é que o povo apoiava Kerry, defendendo-o da crítica de John. Essa situação de ambiguidade criada quando se tem um pronome e dois antecedentes possíveis é muito mais comum do que parece. Na dúvida, vale o mais próximo. Vejamos essas situações risíveis: “Uma promoção para você, que está nos últimos dias”; “Fiz um bolo para minha mãe, que todos comeram”.

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