Assine VEJA a partir de R$ 9,90/mês.
Sobre Palavras Por Sérgio Rodrigues Este blog tira dúvidas dos leitores sobre o português falado no Brasil. Atualizado de segunda a sexta, foge do ranço professoral e persegue o equilíbrio entre o tradicional e o novo.

‘Dois pesos e duas medidas’ está certo? Está

Por Sérgio Rodrigues - Atualizado em 17 fev 2017, 16h11 - Publicado em 19 mar 2013, 17h02

“Meu caro Sérgio, com relativa frequência leio críticas ao emprego da expressão ‘dois pesos, duas medidas’ para designar reações diversas diante de um mesmo fato. Exemplo típico é o posicionamento dos petistas frente a malfeitos dos políticos. Se o político é adversário, é ladrão, mas se é aliado é um perseguido, injustiçado, inocente presumido etc. A princípio, a mim me parece correto o emprego, nesses casos, da expressão que transmite a ideia de uso de dois pesos ou duas medidas para qualificar uma mesma situação de fato, segundo a conveniência do interessado. Gostaria de ouvir sua sábia opinião sobre o assunto. Forte abraço.” (José Araújo)

Não há nada errado com a expressão “dois pesos e duas medidas”, que denuncia, como se sabe, uma injustiça e uma desonestidade – o julgamento de atos semelhantes segundo critérios diversos, conforme seus autores sejam mais ou menos simpáticos a quem julga.

Essa é sem dúvida a forma clássica da expressão, que tem origem bíblica e é empregada em diversas línguas: em inglês, para citar apenas um exemplo, fala-se em two weights and two measures.

As críticas que Araújo afirma encontrar à expressão, e que de fato circulam há algum tempo, são fruto da sabichonice que costuma turvar os debates sobre a língua. Segundo tal corrente, a expressão correta seria “um peso e duas medidas”, pois só esta enfatiza o fato de estarmos diante de um mesmo mérito (um peso) e dois julgamentos diferentes.

Publicidade

Tomado isoladamente, o argumento até faz sentido, mas em termos históricos é um equívoco. A expressão não se refere a duas medições para o mesmo peso, mas a dois pesos e dois metros, artimanhas de comerciante desonesto.

Muita gente boa acaba enganada em sua boa-fé por invenções desse tipo. Como aquela outra, sabe-se lá baseada em quê, segundo a qual o ditado correto é “Quem tem boca vaia Roma” – e não “Quem tem boca vai a Roma”.

No caso presente, faltou combinar com a Bíblia, onde se lê, no Deuteronômio (25:13-16), a passagem que deu origem a “dois pesos e duas medidas”:

Não carregueis convosco dois pesos, um pesado e o outro leve, nem tenhais à mão duas medidas, uma longa e uma curta. Usai apenas um peso, um peso honesto e franco, e uma medida, uma medida honesta e franca, para que vivais longamente na terra que Deus vosso Senhor vos deu. Pesos desonestos e medidas desonestas são uma abominação para Deus vosso Senhor.

Publicidade

*

Para dar conta do grande número de consultas dos leitores, esta semana, excepcionalmente, a seção Consultório está sendo publicada também na terça-feira. Semana que vem as Curiosidades Etimológicas estarão de volta.

Publicidade