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Sobre Palavras Por Sérgio Rodrigues Este blog tira dúvidas dos leitores sobre o português falado no Brasil. Atualizado de segunda a sexta, foge do ranço professoral e persegue o equilíbrio entre o tradicional e o novo.

‘Dez vezes menos’: isso está certo?

“‘Dez vezes menos’: leio com certa frequência esse tipo de construção e nunca me conformei que ela pudesse ser correta. ‘A economia brasileira cresceu duas vezes menos que a média mundial.’ No meu modo de raciocinar, o correto seria dizer ‘cresceu a metade’. Mas tenho encontrado esse tipo de formulação em diversos veículos sérios de […]

Por Sérgio Rodrigues Atualizado em 31 jul 2020, 05h24 - Publicado em 12 set 2013, 16h32

“‘Dez vezes menos’: leio com certa frequência esse tipo de construção e nunca me conformei que ela pudesse ser correta. ‘A economia brasileira cresceu duas vezes menos que a média mundial.’ No meu modo de raciocinar, o correto seria dizer ‘cresceu a metade’. Mas tenho encontrado esse tipo de formulação em diversos veículos sérios de comunicação (VEJA, ‘O Estado de São Paulo’, somente para citar dois). No meu entendimento, ‘vezes’ indica logicamente uma multiplicação, impossível utilizar essa expressão para indicar uma quantidade menor ou fração. É correto formular assim, mesmo que em termos matemáticos seja incoerência ‘10 vezes menos’? No meu entendimento, deveria ser dito ‘um décimo’. Obrigado por esclarecer e abraços.” (José Paulo Palumbo)

A questão trazida por Palumbo é excelente e, sob um certo aspecto, condenada à controvérsia eterna. Isso não me impede de escolher resolutamente um lado nessa guerra: não vejo problema algum numa expressão como “dez vezes menos”, como explicarei abaixo.

Reconheça-se que muita gente boa vê. A aplicação de um certo rigor matemático à linguagem leva esses espíritos inflexíveis a declarar simplesmente errada uma construção como “tantas vezes menos” ou “tantas vezes menor”. Afinal, como dizia um velho redator de jornal com quem trabalhei anos atrás, habituado a passar a caneta na expressão sem dó: “Uma vez menos já é nada, meu filho!”.

A posição é defensável, mas discordo. A meu ver, a linguagem comum expressa sua lógica de forma diferente da matemática em fórmulas de uso corrente como “tantas vezes menos” ou “tantas vezes menor”. Estamos diante de antônimos, de expressões formadas por oposição a, respectivamente, “tantas vezes mais” e “tantas vezes maior”. Se “tantas vezes mais” determina uma multiplicação, seu antônimo “tantas vezes menos” indica uma divisão, um fracionamento. Simples assim.

Num texto que exija precisão científica, pode-se argumentar que a solução é insatisfatória. O fato é que na linguagem comum ela está além da consagração. Veja-se por exemplo como o Houaiss, o melhor dicionário da língua, define o vocábulo “décimo”: “que é dez vezes menor que a unidade”.

É claro que se pode expressar a mesma ideia – e talvez até com mais elegância – com o recurso a numerais fracionários, como sugere Palumbo: em vez de “três vezes menos”, um terço; em vez de “dez vezes menos”, um décimo. A vantagem da primeira fórmula, porém, torna-se evidente quando avançamos na escala: a não ser que se trate de um texto técnico, “quinze vezes menos” dá de mil, nos quesitos clareza e simplicidade, em “um quinze avos”.

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