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Sobre Palavras Por Sérgio Rodrigues Este blog tira dúvidas dos leitores sobre o português falado no Brasil. Atualizado de segunda a sexta, foge do ranço professoral e persegue o equilíbrio entre o tradicional e o novo.

A tirania do leitor

– …e mais uma lista enorme de narradores que um dia o mantiveram sob seu sortilégio, e que por isso mesmo ele leu até enjoar. E enjoou. E foi em frente. A infidelidade era compulsiva. A fila de escritores diante dele, à espera de serem lidos, infinita. De repente aconteceu: ele começou a ficar besta. […]

Por Sérgio Rodrigues Atualizado em 31 jul 2020, 02h26 - Publicado em 21 dez 2014, 09h00

– …e mais uma lista enorme de narradores que um dia o mantiveram sob seu sortilégio, e que por isso mesmo ele leu até enjoar. E enjoou. E foi em frente. A infidelidade era compulsiva. A fila de escritores diante dele, à espera de serem lidos, infinita. De repente aconteceu: ele começou a ficar besta.

– A quem o senhor se refere?

– Ao leitor, ora. O submisso leitor, de tanto ler, deu um jeito de criar sua própria tirania sobre os escritores. Como? Condenando-os, desprezando-os, descartando-os aos magotes após a leitura de meia página. Dizendo, com uma arrogância de velha prostituta que já se entregou a muito prosador nessa vida, que falta-lhes o mínimo, o mais básico cacoete.

– Mas o senhor não acha que o leitor tem esse direito?

– O leitor? Claro que tem. Mesmo assim é preciso reconhecer que a decisão dele sobre o que é o mínimo, o mais básico cacoete para um escritor, é tirânica. Ele pode achar que o sujeito não preenche certos requisitos indispensáveis ligados ao tema, ao gênero, ao tom, ao estilo, à escolha vocabular, ao uso da linguagem. Ou então a posturas políticas, ideológicas, morais. Ou mesmo ao penteado ou à roupa que escolheu para aparecer na orelha.

– Acho tudo isso normal.

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– É mais do que normal, meu jovem: é inevitável. É a vida. Mas a verdade é que, embora a princípio a literatura seja mesmo feita para ele, para o leitor tirânico, a qualidade literária não tem absolutamente nada a ver com as simpatias ou antipatias do nosso mimado personagem.

– E tem a ver com o quê?

– Bom, isso ninguém sabe direito. Eu também não sei, mas diria que tem alguma coisa a ver com o mais óbvio, o mais simples e rasteiro. O modo como uma palavra se segue a outra, como elas se engatam em comboios e vão embora, negociando passagem nos cruzamentos, emitindo apitos sintáticos. Música, sim, por um lado – puro som. E por outro, pensamento puro. Eis o mistério da literatura. Sim, eu me lembro bastante bem. E morro de saudade.

– Morre de saudade? Não entendi.

– Ué, não é óbvio? Aquele leitor tirânico sou eu. Quem leu até enjoar e enjoou fui eu. O cara que condena ao silêncio eterno os escritores, todos eles, após a leitura de meia página, sou eu. Sou eu o pobre coitado, o miserável, o aleijão, o monstro, entendeu? Eu o ditador cruel e solitário, hahahahahaha!

– Hã, interessante, mas acho que estão chamando o meu voo. Obrigado pelo papo, o senhor é muito culto, foi um prazer conhecê-lo.

– Boa viagem, meu filho! Está levando alguma porcaria para ler?

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