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Sobre Palavras Por Sérgio Rodrigues Este blog tira dúvidas dos leitores sobre o português falado no Brasil. Atualizado de segunda a sexta, foge do ranço professoral e persegue o equilíbrio entre o tradicional e o novo.

‘A minha dúvida’: cabe artigo antes do pronome possessivo?

“Caro Sérgio, meu nome é Douglas, sou de Curitiba. Gosto muito de/da sua coluna, e minha dúvida é justamente esta: segundo a norma culta, é errado usar artigos definidos antes de pronomes possessivos? Muito obrigado!” (Douglas de Souza) Não, Douglas. O artigo definido é opcional. “Gosto muito de sua coluna” e “Gosto muito da sua […]

Por Sérgio Rodrigues Atualizado em 31 jul 2020, 03h03 - Publicado em 18 set 2014, 15h22

“Caro Sérgio, meu nome é Douglas, sou de Curitiba. Gosto muito de/da sua coluna, e minha dúvida é justamente esta: segundo a norma culta, é errado usar artigos definidos antes de pronomes possessivos? Muito obrigado!” (Douglas de Souza)

Não, Douglas. O artigo definido é opcional. “Gosto muito de sua coluna” e “Gosto muito da sua coluna” são frases igualmente corretas do ponto de vista gramatical.

Como nem tudo é gramática, isso não quer dizer que sejam rigorosamente idênticas. Entre as razões que podem determinar a decisão do falante – consciente ou não – quanto ao emprego do artigo definido está, além do ritmo da frase, o grau de familiaridade que pretende sugerir.

Estamos falando de algo sutil, mas como regra geral pode-se dizer que, pelo menos no português brasileiro, o artigo definido particulariza, aproxima. Isso o torna recomendável numa declaração quente como “O meu amor por você é imenso, Florbela!”, mas menos à vontade numa sentença formal e retórica como “As gerações futuras pagarão caro por nossa irresponsabilidade ambiental”.

Note-se que, se é facultativo na maior parte dos casos, o artigo definido é obrigatório quando vem antes de um pronome possessivo de valor substantivo, ou seja, aquele que substitui um substantivo já mencionado: “Por falar em namorada, onde anda a sua?”.

Por fim, vale dizer que nenhum texto precisa ser fiel ao artigo definido – ou à sua ausência – de cabo a rabo, como se misturar as duas formas fosse um sinal de desleixo. Não é. Basta ver, por exemplo, como Machado de Assis pendula entre os dois usos em “Memórias póstumas de Brás Cubas”.

Escolho um trecho a esmo e constato que, enquanto dura o caso de amor do narrador defunto com Marcela – ou seja, “quinze meses e onze contos de réis” –, encontramos, em poucas páginas, “a herança de meu pai”, “notícia dos meus zelos”, “minha resposta”, “os meus mais recônditos pensamentos”, “de meu coração”, “a minha vida” – e assim por diante.

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