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Rio Grande do Sul Por Veja correspondentes Política, negócios, urbanismo e outros temas e personagens gaúchos. Por Paula Sperb, de Porto Alegre

Curador da Queermuseu ajuíza ação contra Crivella por censura

Advogados dizem que prefeito cometeu “erro te interpretação” das obras influenciado por “questões de aspectos religiosos e morais”

Por Paula Sperb 19 out 2017, 20h27

Depois de ser fechada pelo Santander, em Porto Alegre, após pressão de grupos que acusavam as obras de zoofilia e pedofilia, a exposição Queermuseu poderia ter sido aberta ao público pelo Museu de Arte do Rio de Janeiro (MAR). Porém, o prefeito Marcelo Crivella (PRB) proibiu a reabertura. “Só se for no fundo do mar”, disse o político em referência ao nome do museu carioca.

Por isso, na última quarta-feira, o curador da Queermuseu, Gaudêncio Fidelis, ajuizou ação contra Crivella. Segundo os advogados Cesar Brandão e Marília Baracat, o prefeito “censurou” a mostra, que tem obras de Cândido Portinari e Alfredo Volpi, “por meio de atitude autoritária e de cunho religioso”. Os advogados pedem a anulação da decisão de Crivella. Procurado por VEJA, o prefeito do Rio de Janeiro ainda não se manifestou.

“O erro de interpretação fática influenciada por questões de aspectos religiosos e morais que induzem a conclusão (ilógica) que a exposição fomentaria a pedofilia e zoofilia serve apenas para turvar o debate principal, que notadamente se refere à liberdade de expressão artística em confronto com o poder-dever do Estado em adentrar em tal seara para promover a proibição (censura)”, diz o texto da ação.

De acordo com os advogados, o ato do prefeito “viola o direito fundamental a liberdade de expressão artística e a proibição da censura, ambos protegidos expressamente na Constituição de 1988”.

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    No início do mês, a Promotoria da Infância do Rio Grande do Sul emitiu uma nota técnica orientando que são os pais que decidem se os filhos podem frequentar museus e exposições.

    Ministério Público Federal do Rio Grande do Sul chegou a recomendar que o Santander Cultural reabrisse imediatamente a exposição, mas a orientação não foi acatada. “O precedente do fechamento de uma exposição artística causa um efeito deletério a toda liberdade de expressão artística, trazendo à memória situações perigosas da história da humanidade como os episódios envolvendo a ‘Arte Degenerada’ (Entartete Kunst), com a destruição de obras na Alemanha durante o período de governo nazista”, disse Fabiano de Moraes, procurador regional dos Direitos do Cidadão, no documento. “A mostra Cartografias da Diferenças da Arte teve sua exibição finalizada no Centro Cultural de Porto Alegre, de cunho privado, no dia 10.9.17 e não será reaberta conforme comunicado do mesmo dia”, disse a entidade a VEJA.

    As obras incompreendidas

    Exposição Queer Museu é suspensa após polêmica
    Travesti da Lambada e Deusa das Águas (2013), de Bia Leite. (Reprodução/Facebook) Reprodução/Facebook

    Travesti da Lambada e Deusa das Águas (acima), criada por Bia Leite em 2013, faz parte da série Criança Viada e tem como objetivo combater o bullying. O curador Gaudêncio Fidelis entende que o termo “viada”, no feminino, ao lado de “criança”, “dessexualiza o xingamento e empodera o sujeito”. “Essas imagens afirmativas de crianças falando em sua própria voz é uma profunda (e contemporânea) afirmação da expressão de gênero e liberdade criativa”, explica Fidelis.

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    Cruzando Jesus Cristo com Deusa Shiva (1996), de Fernando Baril (Reprodução/Facebook) Reprodução/Facebook

    Jesus é retratado exatamente como todos estão acostumados: crucificado. Porém possui inúmeros braços porque foi representado, como diz o título da obra, Cruzando Jesus Cristo com Deusa Shiva (acima), em um sincretismo com a divindade hindu. A obra em acrílico, do porto-alegrense Fernando Baril, é de 1996. “As inúmeras pernas e braços da figura reverberam pela superfície da pintura, exibindo objetos de toda a ordem nas mãos e nos pés, muitos deles relacionados direta ou indiretamente à história da arte e à cultura pop”, diz o texto do catálogo.

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    Cenas de Interior II (1994), de Adriana Varejão (Reprodução/Facebook) Reprodução/Facebook

    Com 1,2 metro de altura por 1 metro de largura, Cenas de Interior II (acima), pintada por Adriana Varejão em 1994, apresenta marcas que lembram um pergaminho guardado por seus segredos. As cenas onde dois homens se relacionam com uma cabra e dois brancos se relacionam com um negro foram “inspiradas em histórias de iniciação sexual que a artista escutou em Alagoas”, escreveu Adriano Pedrosa no catálogo de uma exposição do Museu de Arte Moderna de São Paulo, onde a obra foi exposta em 2013. “Varejão é leitora de Gilberto Freyre e de suas histórias sobre libertinagem na colonização portuguesa no Brasil”, aponta Pedrosa no material. “Não estamos nem na casa-grande nem na senzala, mas num recinto chinês”, situa o texto.

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