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Rio Grande do Sul Por Veja correspondentes Política, negócios, urbanismo e outros temas e personagens gaúchos. Por Paula Sperb, de Porto Alegre

Com nudez, projeto divulga folclore brasileiro para adultos

"Folclore Nu" narra mitos nacionais através de fotografias para que as pessoas se encantem novamente com as histórias como “na época da escola”

Por Paula Sperb - Atualizado em 18 out 2017, 10h44 - Publicado em 17 out 2017, 16h57

O boto-cor-de-rosa se transforma em homem à noite e seduz as mulheres, engravidando-as. O menino escravo é castigado, jogado em um formigueiro e acaba se transformando em um ser encantado. Seja o mito do boto, do negrinho do pastoreio, do lobisomem ou do boitatá, o folclore brasileiro está presente no imaginário nacional. Aliás, é na imaginação das crianças que as lendas são mais vívidas. Por isso, um projeto pretende divulgar o folclore brasileiro para adultos através de fotografias artísticas com nudez. A ideia é que as pessoas se encantem novamente com as histórias que aprenderam na infância através da escola ou da família.

Chamado de “Folclore Nu” (veja mais fotos abaixo), a proposta foi criada por um morador da cidade de São Leopoldo, na região metropolitana de Porto Alegre. Vivendo no Rio Grande do Sul há quatro anos, o sul-matogrossense Andriolli Costa, de 27 anos, é pesquisador da cultura popular e divulga o folclore em apresentações. Em uma dessas ocasiões, ensinando crianças a “colecionar sacis” na cidade de Mococa, no interior de São Paulo, percebeu que os adultos já não davam tanta atenção ao tema.

“Me apresentei em quatro sessões, em uma delas com 800 crianças. À noite, me apresentei para o público adulto e 15 pessoas compareceram. Ali percebi que conseguia atingir crianças, com a contação das lendas, e também os jovens, através do meu blog e contos, mas não os adultos. A menos que fossem professores ou contadores de história, não se sentiam conectados aos mitos. Percebi que precisava de uma narrativa que fizesse encantar adultos de novo”, contou Costa a VEJA.

Através de pesquisas, Costa concluiu que usar a fotografia com nudez artística e dramática poderia ser a forma de contar as lendas “condensadas” em imagens com elementos que remetem às narrativas mitológicas. Seu equipamento não é profissional e ele próprio desenvolve técnicas como a de queimar uma fotografia com a chama do fogão para fotografá-la novamente queimando. Assim, em julho deste ano foi lançado o primeiro ensaio do “Folclore Nu”. Serão sete ensaios no total e quatro já foram publicados. “O número sete está ligado a vários mitos: o sétimo filho é o lobisomem, o saci vive 77 anos e demora sete anos para nascer no gomo de bambu. Tem essa obsessão pelo número sete, que dizem ser o número do encantamento”, explicou.

A lenda do lobisomem foi a primeira a ser retratada, seguida pelo boitatá, boto cor de rosa e negrinho do pastoreio. Os próximos ensaios serão sobre o saci, a iara e o jurupari, uma das lendas indígenas mais antigas do Brasil. As fotografias são publicadas na página do Facebook do “Folclore Nu” e também no site que Costa mantém com a namorada e parceira do projeto Jéssika Andras, de 24 anos. No site, legendas contextualizam os mitos e Costa disponibiliza também suas referências bibliográficas, a mais usada é o “Dicionário do Folclore Brasileiro, do antropólogo e folclorista Luís da Câmara Cascudo (1898-1986). Depois que os sete ensaios forem divulgados, Costa planeja fazer uma exposição das fotografias.

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Boitatá

A lenda não tem relação nenhuma com “boi”. A palavra é derivada do tupi “m’boi tatá”, que significa “cobra de fogo”. Segundo Costa, “o mito é um dos mais antigos do Brasil, registrado pela primeira vez já em 1560 pelo padre José de Anchieta”. Há diversas versões para o mito. Para seu ensaio, Costa se baseou na narrativa do autor gaúcho João Simões Lopes Neto, onde a “cobra grande” ou “boiaçu” sobreviveu se alimentando somente dos olhos dos animais que morreram durante um dilúvio. São esses os olhos pintados no corpo da modelo. “A luzinha que restava nos olhos de cada bicho se reuniu no corpo da Cobra Grande e a incendiou por dentro. Assim, iluminada, a Boiaçú virou a Boitatá que tanto conhecemos. Um mito da devoração”, explica Costa no seu site.

Fotografia foi queimada de verdade para causar o efeito da ilustração da lenda do “Boitatá” Andriolli Costa, Folclore Nu/Divulgação

 

Corpo tem pintura com “olhos” que iluminam a “cobra de fogo” da lenda Boitatá Andriolli Costa, Folclore Nu/Divulgação

Negrinho do Pastoreio

O ensaio foi fotografado em um haras de uma cidade próxima. “Fui de Uber”, brinca Costa. “Avisei que seria um ensaio nu, mas o pessoal disse que era tranquilo, no final de semana estaria vazio”, contou a VEJA sobre os bastidores. Existem várias versões para o mito sobre um garoto escravo ou filho de escravos castigado por perder os cuidados que cuidava. O garoto é açoitado e jogado em um formigueiro, mas ele sobreviva e se sorta uma figura encantada. A presença de Nossa Senhora na lenda foi incluída por Simões Lopes Neto, explica Costa.

Na lenda do “Negrinho do Pastoreio”, o garoto é punido por perder os cavalos Andriolli Costa, Folclore Nu/Divulgação
O manto azul é uma referência à Nossa Senhora Aparecida, que salva o menino na versão narrada pelo escritor gaúcho João Simões Lopes Neto Andriolli Costa, Folclore Nu/Divulgação
Na lenda, cada pingo de cera da vela carregada pelo garoto se transformava em uma tocha Andriolli Costa, Folclore Nu/Divulgação

Boto cor de rosa

A paisagem exigia água e Costa usou um riacho do município de Morro Reuter, a 56 km de Porto Alegre. Esse foi o primeiro ensaio masculino da série. “Ele é um mito sedutor, então queria que essa fosse a ideia. Foi diferente do ensaio da boitatá, por exemplo onde a modelo não precisava aparecer assim”, contou a VEJA. “A sina do boto é a da conquista. Todas as noites de festa ele aparece nas comunidades ribeirinhas, onde seduz e toma para si uma mulher diferente. Assim que consegue o que quer, abandona imediatamente sua amante. Deixa para trás, muitas vezes, uma gravidez indesejada”, diz a explicação de Costa publicada com o ensaio.

Na lenda, o boto se transforma em homem e seduz as mulheres Andriolli Costa, Folclore Nu/Divulgação
Segundo Costa, os registros da lenda do boto cor de rosa surgem no Brasil a partir do século XIX Andriolli Costa, Folclore Nu/Divulgação
O boto-homem é descrito como uma pessoa de traços europeus e com roupas brancas e elegantes Andriolli Costa, Folclore Nu/Divulgação

Lobisomem

Costa explica que “ o sétimo filho, se não for batizado pelo primogênito, tem seu destino garantido: mais cedo ou mais tarde, vira lobisomem”. O ensaio foi fotografado em uma casa de Porto Alegre e levou mais de duas horas para ser concluído. “Para acabar com o encantamento, é preciso ferir o lobisomem durante a noite em luta leal, até que seu sangue jorre no chão. Se o sangue tocar no oponente, no entanto, o fado é transferido e ele também se torna lobisomem”, explica Costa.

A lenda conta que o sétimo filho, se não for batizado pelo irmão mais velho, se transforma em lobisomem. Andriolli Costa, Folclore Nu/Divulgação
A transformação ocorre em um chiqueiro onde o ser rola na terra e se transforma em lobisomem, que no outro dia, na forma humana, vomita o que comeu durante a noite Andriolli Costa, Folclore Nu/

 

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