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Ricardo Rangel

Reputação suja como as cuecas

A conivência dos senadores com Chico Rodrigues explica a crise de nosso sistema político

Por Ricardo Rangel - 16 out 2020, 12h09

“Foi uma ação afoita [do ministro Barroso, ao afastar Chico Rodrigues]. Não pode tomar decisão assim. E o direito ao contraditório?”, disse Ângelo Coronel (PSD-BA), integrante do Conselho de Ética do Senado. “Mesmo num caso midiático como esse, não pode ser assim.”

“O caso pode ser, digamos, bizarro, mas é contra a democracia quem acha que decisão monocrática pode afastar mandato popular”, afirmou o senador Espiridião Amin (PP-SC).

Diversos outros senadores, alguns também integrantes do Conselho de Ética (aliás, como o Brasil é o país da piada pronta, Rodrigues é um dos membros do conselho) se manifestaram contra a decisão de Barroso.

O senador Chico Rodrigues (DEM-RR) foi pego em flagrante obstrução de justiça. Fosse ele um brasileiro comum, estaria preso. Entre prender um detentor de mandato popular e mantê-lo em condições de continuar obstruindo a Justiça e reincidir no crime por que está sendo investigado, Barroso optou por uma medida intermediária discutível, mas perfeitamente defensável.

Ainda que o protesto dos senadores tenha mérito — decisão monocrática para afastar detentor de mandato popular é coisa complicada, mesmo —, os doutos senadores estão exagerando. Afinal, o crime de Rodrigues é óbvio e indiscutível, e o afastamento (cuja motivação é consistente) depende de concordância do Senado: se os senadores são contra o afastamento, podem revogá-lo rapidamente.

Mas realmente grave é que os senadores se mostrem mais indignados com a ação de combate ao crime por parte de Barroso do que com o crime em si. Se fossem dignos dos mandatos que receberam do povo, estariam denunciando o colega criminoso e se organizando para cassá-lo. Dadas suas declarações, entretanto, tudo indica que a atitude do senadores em relação a Chico Rodrigues não será diferente da atitude dos deputados em relação a Flordelis, que até hoje não foi cassada.

O corporativismo e a conivência com ilícitos e desvios éticos — sejam falsificação de currículo (Kassio Marques), corrupção (Chico Rodrigues) ou homicídio (Flordelis) — explica por que a reputação de nossos nobres parlamentares está mais suja do que pau de galinheiro.

Ou do que as cuecas de Chico.

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