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Ricardo Rangel

Queiroz e a semana que não vai acabar

Jair Bolsonaro já não assusta ninguém

Por Ricardo Rangel - Atualizado em 18 jun 2020, 14h13 - Publicado em 18 jun 2020, 10h46

Onde está Queiroz? Na cadeia. Onde estava? Na casa de campo do advogado de Flávio Bolsonaro. Qual advogado? Fred Wassef, que é advogado de Jair Bolsonaro no caso Adélio, e frequenta amiúde os Palácios do Planalto da Alvorada.

Não é preciso dizer que a prisão de Queiroz representa um problema monstruoso para Flávio Bolsonaro e complica enormemente a situação política de seu pai, mas o que há de mais importante na prisão de Queiroz é sua componente simbólica.

Queiroz está “desaparecido” há mais de um ano, mas a polícia sempre soube onde ele estava (quando menos, a VEJA revelou que, no ano passado, ele estava hospedado em um apartamento no Morumbi, em São Paulo, enquanto fazia tratamento de câncer). No entanto, até agora, nunca se atrevera a prendê-lo. O que aconteceu que fez a polícia se animar de repente?

O que aconteceu foram as decisões do Supremo no início desta semana, com ordens de prisão, busca e apreensão e quebra de sigilo contra apoiadores do presidente. Ficou claro que o Supremo não se deixará intimidar por Bolsonaro, e que o presidente não tem o apoio nem do Exército nem da Procuradoria-Geral da República. Os generais palacianos ficaram calados e conseguiram manter Bolsonaro calado por três dias, e Mourão deu uma declaração amistosa em relação ao STF. Até os filhos de Bolsonaro deram declarações apaziguadoras.

Na quarta-feira, no cercadinho do Alvorada, Bolsonaro fez declarações enigmáticas, vagamente ameaçadoras (mas vazias, era só conversa fiada para os fãs). Foi o que bastou para uma dúzia de deputados, vários dos quais irrelevantes, gente que nunca teve coragem de se manifestar contra o presidente, vir a público para confrontá-lo energicamente.

No mesmo dia, a PGR denunciou Sara Winter e o TCU anunciou que vai fazer um mapeamento da “militarização” do governo. Fabio Faria, suposto novo chefe da comunicação do governo, disse, na cara do presidente (que ouviu calado), que precisamos de um “armistício político” para concentrar no combate à pandemia, e deve-se deixar a preocupação com reeleição para 2022. Para não melindrar Dias Toffoli, do STF, Abraham Weintraub foi expressamente desconvidado para a posse de Faria.

E, no dia seguinte, com um ano e meio de atraso, a polícia finalmente animou-se a prender Queiroz.

Esses acontecimentos não são coincidências, eles assinalam uma mudança de maré: firmou-se a percepção de que o presidente perdeu força e sustentação. Ninguém mais tem medo de Jair Bolsonaro.

O que estamos vendo é só o começo: esta é uma semana que não acabará tão cedo.

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