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Ricardo Rangel

De volta ao “velho normal”?

O eleitor parece cansado de tanta polarização

Por Ricardo Rangel 16 nov 2020, 14h17

Em 2018, a sociedade, frustrada com a corrupção e a incapacidade dos políticos convencionais em atender a suas demandas, fez uma aposta maciça (e arriscada) na mudança. Essa aposta adquiriu tintas extremistas e botou o bolsonarismo no poder.

Nesta eleição, o eleitorado arriscou pouco e parece ter querido voltar ao “velho normal”, escolhendo políticos vistos como experientes e competentes. Isso explica o primeiro lugar para o prefeito Bruno Covas em São Paulo e para ex-prefeito Eduardo Paes no Rio de Janeiro, assim como a reeleição em primeiro turno de Alexandre Kalil, em Belo Horizonte. Prefeitos foram reeleitos em primeiro turno também em Curitiba, Florianópolis, Natal, Campo Grande e Palmas. Em Salvador, o prefeito ACM Neto elegeu seu vice.

Jair Bolsonaro foi o grande derrotado: nas capitais, nenhum dos candidatos que apoiou abertamente chegou em primeiro, e apenas dois, o Capitão Wagner, em Fortaleza, e o prefeito Marcelo Crivella, no Rio, passaram ao segundo turno (este último não parece ter chance). Sua derrota é fruto de uma sucessão de erros que começou ainda antes da posse, mas também de um refluxo da onda bolsonarista que varreu o país em 2018.

Também derrotado foi o PT, que só conseguiu chegar ao segundo turno em duas capitais, Vitória, com João Coser, e Recife, com Marília Arraes. Em São Paulo, cidade que já governou três vezes e onde sempre esteve presente no segundo turno, o PT teve a pior derrota de sua história: com menos de 9% dos votos, Jilmar Tatto ficou em sexto, atrás até de Arthur do Val (o “Mamãe, falei”).

O fracasso do PT representou, em muitos lugares, o sucesso de partidos que, tradicionalmente, o apoiariam. Em São Paulo, Guilherme Boulos, do PSOL, está no segundo turno, assim como Edmilson Rodrigues, em Belém; no Rio de Janeiro, a candidata do partido, Renata Souza, foi mal sucedida, mas é emblemático que o partido tenha preferido abrir mão de Marcelo Freixo a aliar-se ao PT. Em Porto Alegre, Manuela d’Ávila, do PCdoB, candidata a vice de Haddad em 2018, está no segundo turno. O PSB chegou ao segundo turno em Recife, Maceió e Rio Branco, e o PDT passou em Aracaju e Fortaleza.

É uma novidade interessante que partidos de esquerda vistos como linhas auxiliares do partido de Lula passem a se ver como independentes e competitivos. É cedo para saber quais serão as consequências disso, mas não é impossível que, livres do PT, tais partidos possam integrar uma frente de esquerda independente, ou até uma frente democrática contra Bolsonaro.

Não se sabe o que vai acontecer em 2022, mas, por ora, é certo que as urnas castigaram Bolsonaro sem absolver Lula e escolheram candidatos não extremistas. Pode ser um recado de que a sociedade está se cansando de tanta polarização, confusão e gritaria.

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