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Ricardo Rangel

Brasil deve receber 2021 com esperança, mas sem ilusões

2020 acabou. Já foi tarde

Por Ricardo Rangel Atualizado em 1 jan 2021, 11h06 - Publicado em 1 jan 2021, 07h30

No ano passado, a Covid-19 matou quase 200 mil brasileiros. Enquanto o Brasil enfrentava a pior crise sanitária em 100 anos, Jair Bolsonaro menosprezou os riscos, afrontou vítimas e parentes, trocou o ministro da Saúde duas vezes, fez campanha em favor de aglomerações e de remédios inócuos e contra máscaras e vacinas. Não descuidou do resto: atacou o meio ambiente, a educação, a cultura, os direitos humanos, as relações exteriores. Só a economia ficou incólume: as prometidas reformas foram abandonadas.

Na política, o presidente hostilizou o Congresso, o STF, a imprensa; interferiu na Polícia Federal e derrubou o ministro da Justiça; ameaçou golpe militar. Segundo reportagem, nunca desmentida, da revista Piauí, chegou a decidir — com o apoio de vários ministros — fechar o Supremo. Para não dizer que o governo errou em absolutamente tudo, o auxílio emergencial (em que pesem as falhas na concessão do benefício) deu alívio aos mais pobres e amorteceu o impacto no PIB, que caiu “apenas” 4,5%.

Devemos celebrar o fim de 2020 e receber o ano novo com esperança — até porque, sem ela, resta o desespero —, mas sem falsas ilusões. Daqui a seis meses, é provável que a pandemia seja um capítulo quase encerrado em dezenas de países do mundo, incluindo nossos vizinhos sul-americanos. Os cidadãos desses países estarão confiantes, os investimentos terão voltado, a economia estará crescendo. Será o início de uma era de alegria, entusiasmo e fé no futuro — como foram os anos 20, após o fim da Primeira Guerra e da gripe espanhola.

É improvável que esse cenário positivo se replique aqui. O Brasil foi, até agora, um circo de horrores no que se refere à Covid-19, e não há motivo para acreditar que será diferente em 2021. Faltam-nos vacinas, seringas, agulhas e, principalmente, comprometimento e senso de urgência por parte das autoridades: Bolsonaro “não dá bola” para o atraso na vacinação; Pazuello não entende por que “tanta angústia e ansiedade”; o diretor da Anvisa, Barra Torres, faz exigências estapafúrdias. Ainda que o presidente contrarie sua natureza, mude de atitude e substitua os dois auxiliares incompetentes, não será possível recuperar o tempo perdido.

Diferentemente do ano passado, iniciamos 2021 com alto patamar de óbitos e desemprego muito superior. Não é razoável acreditar em crescimento econômico expressivo se a pandemia seguir descontrolada, e não parece realista acreditar que o governo conseguirá controlá-la (supondo-se que tente) antes dos últimos meses do ano. A vitória de Biden aumenta a chance de sofrermos sanções comerciais.

O risco de golpe passou, mas o conflito com as instituições prosseguirá. Se perder a batalha pela presidência da Câmara, Bolsonaro não terá trégua no Parlamento; se vencer, precisará entregar centenas de cargos ao Centrão, cuja moral homogênea e viés gastador elevarão os riscos fiscal e institucional. O avanço das investigações contra a família do presidente aumentará a instabilidade.

O pior ano da história acabou, mas os auspícios para 2021 não são os melhores.

A esperança, no entanto, resiste. Feliz ano novo, caro leitor.

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