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Ricardo Rangel

Bolsonaro, surpreendentemente, surpreende

A decisão do presidente de depor de maneira presencial é tão inesperada quanto temerária

Por Ricardo Rangel 6 out 2021, 16h52

Bolsonaro é famoso por ser previsível: ele agride frontalmente, eventualmente recua (mas só um pouco), depois passa a agredir de maneira enviesada: seu território é o do confronto, não o da conciliação.

Mas agora, em um gesto de aparente conciliação, Bolsonaro se ofereceu para depor presencialmente no inquérito que apura a denúncia de Sergio Moro segundo a qual teria interferido na Polícia Federal.

Surpreendente por fugir ao comportamento padrão, a manobra espanta também porque é um erro tão óbvio que não seria de se esperar mesmo vindo de alguém tão pouco sofisticado quanto Bolsonaro.

O presidente é despreparado e impulsivo: se responder pessoalmente aos investigadores, a chance de se incriminar é alta.

Até porque Bolsonaro é obviamente culpado: ele próprio admitiu ter encomendando diretamente à Polícia Federal o inquérito do suposto assassino de Marielle Franco, Ronnie Lessa, assim como determinou a demissão imotivada do diretor da PF, Maurício Valeixo, contra a vontade expressa do ministro da Justiça.

Mesmo que dê como certo que Alexandre de Moraes vá determinar o depoimento presencial, o comportamento padrão de Bolsonaro não seria facilitar para o STF, mas aproveitar a oportunidade para se colocar no papel de vítima e demonizar o ministro e o Supremo.

A não ser que… isso faça parte de um eventual acordo feito após o 7 de setembro, quando o presidente, para impedir o impeachment, sob a inspiração de Michel Temer, se fantasiou de Jairzinho-Paz-e-Amor e assinou a carta mais vexaminosa que o Brasil já viu.

Mesmo assim, é estranho, já que Bolsonaro não é famoso por cumprir acordos.

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