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Ricardo Rangel

A mitificação como método

Um pronunciamento com lorotas agradáveis e sem verdades desagradáveis

Por Ricardo Rangel - 8 set 2020, 19h37

Em seu sexto (!) pronunciamento este ano, Bolsonaro discorreu sobre o glorioso passado brasileiro. Aludiu a um “histórico 7 de setembro de 1822”, no qual “ às margens do Ipiranga”, o Brasil teria dito ao mundo que “nunca mais aceitaria ser submisso a qualquer outra nação e que os brasileiros jamais abririam mão da sua liberdade”.

Conversa fiada: o 7 de setembro foi um não-evento, em que o (já) imperador deu conta de um fato consumado a uma dúzia de amigos e subordinados: a declaração de Independência havia sido assinada cinco dias antes pela regente, Dona Leopoldina. O presidente preferiu endossar a versão heroica — e falsa — da historiografia oficial.

Bolsonaro afirmou que “religiões, crenças, comportamentos e visões eram assimilados e respeitados”, e que o Brasil “desenvolveu o senso de tolerância, os diferentes tornavam-se iguais”, como se nosso pais fosse uma espécie de paraíso de pluralidade e compreensão.

Como se no Brasil não houvesse escravatura, e, mesmo após a abolição, há 130 anos, não continuasse cruelmente racista. Como se o Brasil não perseguisse seus índios, coisa que faz até hoje, inclusive com a ajuda do supremo mandatário, que recentemente vetou uma lei que lhes garantiria água potável. Como se aqui não houvesse preconceito contra mulheres ou homossexuais. Como se a desigualdade não fosse brutal, não houvesse miséria nem faltasse esgoto a metade da população.

“Nos anos 60, quando a sombra do comunismo nos ameaçou, milhões de brasileiros, identificados com os anseios nacionais de preservação das instituições democráticas, foram às ruas contra um país tomado pela radicalização ideológica, greves, desordem social e corrupção generalizada”, disse o presidente. Repetiu a cantilena falaciosa de que o golpe de 1964 nos salvou do comunismo e preservou a democracia.

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Qualquer um que conheça a história brasileira sabe que o espantalho do comunismo era tão falso em 1964 quanto em 1937, quando Getúlio Vargas, com a ajuda dos militares, dele lançou mão para implantar a ditadura do Estado Novo. Como sabe que o golpe de 1964, a pretexto de salvar a democracia, nos deu 21 anos de ditadura — e sabe que o golpe então vitorioso fora tentado antes, em 1954, 1955 e 1961, quando era impossível dizer que havia desordem ou fantasma de comunismo.

E reiterou seu “compromisso com a Constituição e com a preservação da soberania, democracia e liberdade, valores dos quais nosso País jamais abrirá mão”, valores esses contra os quais o presidente vem atentando de maneira recorrente.

Bolsonaro reiterou um compromisso falso, repetiu as mentiras do passado e evitou as verdades do presente. Ignorou a pandemia, que considera uma “gripezinha”, cujo saldo de saldo de mortes chegou a 127.001 , no dia do pronunciamento. Ignorou os incêndios no Pantanal, que já destruíram mais de 10% da região. Ignorou a devastação ambiental na Amazônia. A recessão. O iminente descontrole fiscal. A calamidade na Educação. Etc. etc.

Bolsonaro, como de hábito, aposta que o povo brasileiro desconhece sua própria história e engole qualquer lorota.

A julgar por sua popularidade atual, é uma boa aposta.

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