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Ricardo Rangel

“A miséria intelectual de quem nega a Ciência” (por Hugo Fernandes)

"Parte do Brasil aprendeu a tripudiar sobre um erro que nunca aconteceu."

Por Ricardo Rangel - Atualizado em 30 jul 2020, 18h48 - Publicado em 20 jul 2020, 19h47

Para celebrar o Dia Nacional da Ciência, 8 de julho, foi criada a campanha #CientistaTrabalhando: ao longo deste mês, colunistas cedem seus espaços na imprensa para abordar temas relacionados ao processo científico.

Hoje este espaço está a cargo do biólogo, professor da Universidade Estadual do Ceará (UECE) e divulgador científico Hugo Fernandes: 

 

A miséria intelectual de quem nega a Ciência

Hugo Fernandes

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“Cadê o seu um milhão de mortos, Atila?”

Um dos “argumentos” atuais para os negacionistas da pandemia de COVID-19 é acusar o biólogo Atila Iamarino e demais divulgadores científicos de serem alarmistas irresponsáveis, que aterrorizaram a população. No dia 31 de março, Iamarino reportou uma pesquisa da Imperial College of London, que apontava para o risco de o Brasil assistir 1,1 milhão de mortos pela pandemia, caso nada fosse feito.

“Caso nada fosse feito”. Não só ressaltado, como também acompanhado pelas projeções de cenários melhores. Não importa. O “um milhão de mortos” surgiria ali como um mantra a ser usado para desqualificar a Ciência, a gravidade do problema e, principalmente, o mensageiro.

Em março, o Presidente da República afirmou, pelo Facebook, que não morreriam 800 pessoas de COVID-19, desacompanhado de qualquer referência. Hoje, com mais de 75.000 óbitos, o Brasil mais que dobrou as estimativas mais otimistas do Imperial College, caso tivéssemos sido bem conduzidos na resolução dessa crise. Nem a instituição tampouco o divulgador científico erraram, mas ainda é importante ressaltar que a estatística mais pessimista de 1,1 milhão de mortos significaria 14 vezes mais do que o atual número. Já a previsão de Bolsonaro, um erro crasso e irresponsável, precisaria ser multiplicada por 93 para atingir o quadro de óbitos, que, infelizmente, ainda irá aumentar.

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Em se tratando de negacionismo, tem destaque o médico Osmar Terra (MDB), deputado da base bolsonarista. Em abril, afirmou pelo Twitter que sua previsão de 4.000 mortos teria margem de erro infinitamente menor que as “previsões catastróficas”.

Na mesma rede, praticamente todos os meses, previu picos e quedas que nunca ocorreram. Pois bem, ainda estamos na curva ascendente da pandemia e a estimativa imaginária do deputado corresponde a um valor 18 vezes menor do que o número de óbitos atuais. O deputado perdeu a aposta e nós perdemos 4.000 pessoas a cada três dias, em média

Não espere retratação do deputado ou do Presidente, como não houve nas dezenas e ainda recorrentes tentativas de negar a escalada de desmatamento na Amazônia, que coloca não só o meio ambiente do mundo inteiro em risco, como também a economia do país. Se os dados atrapalham, tem sido mais fácil maquiá-los ou apagá-los do que resolvê-los.

O ataque político ganha reverberação dos súditos, em redes sociais. Pessoas que, embora acusem, também são vítimas. Vítimas de discursos conspiracionistas, que antes eram reservados a fóruns de sites desconhecidos tocados por pessoas sem a menor relevância, mas que hoje ganham endosso institucional do mais alto escalão da política.

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Parte do Brasil aprendeu a tripudiar sobre um erro que nunca aconteceu. E o deboche, mesmo que não percebam, implica na naturalização grotesca de dezenas de milhares de mortes.

 

 

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