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ReVEJA Por Blog Vale a pena ler de novo o que saiu nas páginas de VEJA em quase cinco décadas de história

Aconteceu naquele Oscar: a eletrizante disputa de 1976

'Um Estranho no Ninho', de Milos Forman, atropelou de uma só vez Stanley Kubrick, Robert Altman, Steven Spielberg, Federico Fellini e Sidney Lumet

Por Da redação Atualizado em 30 jul 2020, 21h03 - Publicado em 25 jan 2017, 23h36
"Vitória total": clique para ler a reportagem
“Vitória total”: clique para ler a reportagem Reprodução

Com o recorde de 14 indicações ao Oscar, o musical La La Land – Cantando Estações tem a chance de conquistar os cinco grandes prêmios da Academia de Hollywood (melhor filme, direção, ator, atriz e roteiro), façanha só alcançada por três produções: Aconteceu Naquela Noite (1934), de Frank Capra; Um Estranho no Ninho (1975), de Milos Forman, e O Silêncio dos Inocentes (1991), de Jonathan Demme.

Dos três, Um Estranho no Ninho teve de longe o páreo mais duro. Na categoria de melhor filme, competiam também: Tubarão (Steven Spielberg), Barry Lyndon (Stanley Kubrick), Um Dia de Cão (Sidney Lumet) e Nashville (Robert Altman). Entre os diretores, Forman superou Altman, Kubrick, Lumet e ainda Federico Fellini, com Amarcord. Entre os atores, Jack Nicholson bateu Al Pacino, Walter Matthau, Maximilian Schell e James Whitmore. Louise Fletcher, a sádica enfermeira de Um Estranho no Ninho, venceu Isabelle Adjani, Ann-Margret, Glenda Jackson e Carol Kane. Bo Goldman and Laurence Hauben bateram os roteiros de Barry Lyndon (assinado por Stanley Kubrick), O Homem Que Queria Ser Rei (John Huston), Perfume de Mulher (a primeira versão, de Dino Risi) e Uma Dupla Desajustada (roteiro de Neil Simon).

O Oscar de 1976 foi o primeiro tanto para Forman como para Nicholson. O diretor levaria outra estatueta por Amadeus, e Nicholson, mais duas, por  Laços de Ternura e Melhor É Impossível.

A vitória acachapante de Um Estranho no Ninho foi relatada na edição de VEJA de 7 de abril de 1976. ‘Vitória total’ foi o título da reportagem. Para além da premiação, VEJA narrava a longa batalha do ator Kirk Douglas, que encenara Um Estranho no Ninho nos palcos, e seu filho para fazer o filme. O jovem Michael Douglas, então mais conhecido por atuar na TV, acabaria assinando a produção do longa-metragem.

Leia abaixo trechos da reportagem:

No palco do Los Angeles Music Center, Audrey Hepburn fez a pausa habitual antes de anunciar o nome do melhor filme do ano. Cercado por amigos em sua majestosa casa de Palm Springs, o senhor Issur Danielovitch Demsky, de 59 anos, conhecido mundialmente como Kirk Douglas, prendeu a respiração. “And the winner is ‘One Flew Over the Cuckoo’s Nest'”, proclamou a atriz. Era a quinta e a mais importante das premiações à película. Kirk Douglas exultou triunfante. E não sem motivos. Pois embora não tivesse nenhuma ligação direta com a produção de ‘Um Estranho no Ninho’ (título nacional da obra), as cinco láureas do filme constituíam o resultado de um paciente trabalho que ele iniciara há treze anos.

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Em 1962, Ken Kesey, um ex-enfermeiro, conseguiu publicar um romance em que descrevia o bárbaro tratamento infligido aos pacientes de asilos psiquiátricos oficiais. No ano seguinte, o teatrólogo Dale Wasserman (que ficaria célebre com ‘O Homem de La Mancha’) adaptou o livro para o teatro e, no mês de outubro, Douglas estreava ‘One Flew Over the Cuckoo’s Nest’ nos palcos nova-iorquinos, vivendo o papel principal, de um certo Randle McMurphy. Embora a versão teatral de Wasserman e a interpretação de Kirk Douglas não tivessem conseguido sensibilizar os críticos, o ator, fascinado pela personagem, começou a acalentar o projeto para vivê-la na tela.

Três anos depois, ao assistir a ‘Os Amores de Uma Loira’, de um cineasta checo chamado Milos Forman, a que jamais vira pessoalmente, Douglas decidiu ser ele o diretor ideal para levar ‘Cuckoo’s Nest’ ao cinema. Imediatamente enviou uma carta e um exemplar do romance a Forman, em Praga, convidando-o a realizar o filme.

Asilo psiquiátrico – Na época, Milos Forman já conquistara diversos prêmios internacionais com os três longas-metragens que havia realizado na Checoslováquia. ‘As condições de trabalho eram excelentes’, recorda. ‘Não sofríamos injunções comerciais e gozávamos de liberdade ideológica quase absoluta.’ O ambiente, na verdade, não devia ser tão favorável assim, pois Forman jamais chegou a receber nem livro nem convite. Quanto a Kirk Douglas, aparentemente estava sozinho em seu entusiasmo pela história: não foi capaz de interessar nenhum grande estúdio em seu projeto. ‘Tratava-se de um tema pouco comercial’, afirmavam os financiadores. Diante de tantas dificuldades, sentindo-se já velho demais para o papel, o ator não tardou em passar os direitos cinematográficos de ‘Cuckoo’s’ a seu filho Michael (do seriado de TV ‘San Francisco Urgente’).

Foi o recomeço de um longo processo que exigiu de Michael Douglas, hoje com 31 anos, doses homéricas de paciência. As grandes companhias simplesmente não acreditavam em qualquer possibilidade de êxito para ‘Cuckoo’s Nest’. Mesmo assim, em 1974, Michael convenceu o produtor de discos Saul Zaentz a assumir parte dos custos do filme. Ambos formaram a ‘fantasy Films’, e chamaram o mesmo Forman para dirigi-lo.

Habituado a trabalhar com artistas desconhecidos, Milos Forman várias vezes deixou claro seu receio em ter celebridades nos seus elencos. ‘É difícil convencê-los a despirem a personalidade de astros e aceitarem a orientação de um diretor’, costuma sentenciar.

No caso de Randle McMurphy, a figura central de ‘Cuckoo’s Nest’, entretanto, Milos Forman mudou seus métodos e literalmente exigiu que o papel fosse confiado a Jack Nicholson. (…) ‘Precisava de um ator com a exuberância de Nicholson’, declara Forman, ‘capaz de sugerir a extraordinária vitalidade dessa personagem’.

 

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