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ReVEJA Por Blog Vale a pena ler de novo o que saiu nas páginas de VEJA em quase cinco décadas de história

“Para ser santo, tem que sofrer”

É o que dizia madre Teresa de Calcutá, canonizada no último domingo, no longínquo ano de 1979 - meses antes de vencer o Nobel da Paz

Por Daniel Jelin Atualizado em 30 jul 2020, 21h53 - Publicado em 9 set 2016, 19h55

Canonizada no último domingo pelo papa Francisco, madre Teresa de Calcutá (1910-1997) já era chamada santa em vida: a “santa dos miseráveis”, como VEJA intitulou entrevista nas páginas amarelas da edição de 25 de julho de 1979. Nela, a missionária iugoslava, então com 69 anos, falava de sua Ordem das Missionárias da Caridade, que fundara na Índia em 1950, e rebatia algumas das críticas que já então recebia – todas recapituladas durante o processo que a alçou ao panteão dos santos.

Sobre o culto do sofrimento, por exemplo, madre Teresa defendia: “Para que cheguemos a ser santos temos que sofrer muito. O sofrimento engendra o amor e a vida nas almas”. Sobre a relevância da esmola: “Tratamos de uma pessoa, não de uma multidão”. Sobre a santidade na era contemporânea: “Todos nós somos chamados à santidade”. Sobre a metáfora gasta do peixe e da vara de pescar: “Muitas vezes já me disseram que eu não deveria oferecer peixes aos homens, mas, sim, varas para que eles pesquem. Ah, meu Deus! Muitas vezes ele nem têm forças para segurar as varas. Ao dar-lhes peixes, ajudo-os a recuperar forças para a pesca de amanhã.” Conformismo? “Se eu crio um estado de impaciência, de revolução social, sem ter o que propor de concreto e de bom para substituir aquilo que quero derrubar, não estou agindo acertadamente. No final, estarei frustrando as esperanças que tanto insuflei.”

Madre Teresa resumia as causas da pobreza ao egoísmo e pregava um único remédio: amor. Instada a comentar as condicionantes políticas ou econômicas da miséria, fazia-se lacônica: “Não tenho tido tempo para pensar nisso. Outros que se ocupem dessa tarefa.” VEJA abordou então a reprovação que mais frequente se fazia ao trabalho da missionária: a crítica de que seu trabalho, na verdade, gera o culto da pobreza. “A questão não é ser pobre, é fazer a opção de ser pobre para poder mais facilmente se identificar com Cristo — e chegar por Ele aos pobres. É identificar-se com os pobres para viver um clima de amor e de fraternidade, retornando, assim, ao Cristo. Dá para entender?” Adiante, a reportagem insiste: “Como é possível alguém achar bonito uma pessoa não ter o que comer?” Responde a madre: “A beleza não está na pobreza mas na coragem de ainda sorrir e ter esperanças apesar de tudo. Não admiro a fome nem o relento, nem o frio — mas a disposição de enfrentá-los, a coragem de sorrir e de viver mesmo assim”.

Figura frequente nas listas de cotados para o Nobel da Paz, madre Teresa foi instada na mesma entrevista a responder ser gostaria, afinal, de receber a láurea. “Nunca recuso um prêmio porque tenho muita necessidade de recursos para minhas obras.” No fim do ano, a missionária levaria de fato o Nobel. E a pedido dela, pela primeira vez desde 1901, o banquete de gala seria cancelado para que o dinheiro fosse revertido em favor dos “pobres mais pobres”.

amarelasmadreteresadecalcutaLeia em VEJA de 25 julho de 1979: A santa dos miseráveis

Leia em VEJA de 19 de dezembro de 1979: Madre Teresa recebe o Nobel

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